Confira todos os textos da edição #315
Saudades do Cais Mauá aberto à cidade, por Tiago Medina
Histórias de Autógrafos: Tom Wolfe em “Um Homem Por Inteiro”, por Carlos Gerbase
Thiago Lacerda, medida por medida, por Juremir Machado da Silva
Centenária: Maria, vó minha - Capítulo 11, por Tiago Maria
Mãe, a mais inesquecível dentre os tipos, por Fernando Seffner
Caio, a carroça e a facilidade em destruir, por Gilberto Perin
Amanda Costa: "Caio antecipou muito do que tem sido feito na literatura recente", por Luís Augusto Fischer
Porto Alegre, 1902-06: Máscaras e carrancas nos prédios da capital, por Arnoldo Doberstein
Projeto Gema – Dez anos: Ato II, por Lucas Luz
A medida das coisas humanas: Capítulo V, por Helena Terra
Janaína leu o Mulheres Empilhadas que levei para a biblioteca do presídio. Perguntou se conheço a Patrícia Melo e o que achei do livro. Se eu não gostasse, não teria separado um exemplar para elas. Bibliotecas não são depósitos de publicações. Na da minha casa, livros ruins não ficam por muito tempo. Quando descubro um mal escrito, jogo, sem dó, no lixo. Tem gente que se arrepia com esse gesto. Mas eu prefiro assassinar um livro a assimilar ou transferir para outra pessoa páginas estúpidas e alienantes, mas, é óbvio que eu não disse nada.
Outro dia, em uma livraria, depois de ter dito à Tati que eu havia lido, duas vezes, o Inferno Provisório, do Luiz Ruffato, e que ela deveria lê-lo, a atendente, rindo feito uma boneca de pilha, perguntou se era um romance bom. Quando saímos, melhor nem comentar minha fala, Tati me recriminou. Recriminar. Efeito presídio. Falando desse jeito, parece que eu também cumpro pena. Algo expio, isso é fato. Volto sempre chorando para casa. Vários tipos de choro: desde o alívio por estar, no meu carro, andando pelas ruas, ao peso de ter testemunhado ao vivo e em cores, na verdade em cinza, o quanto a vida pouco acontece dentro daquele lugar aos pedaços.
Janaína, apesar de toda a degradação, prepara a sala para os nossos encontros com um zelo raro. Mantém os livros e as cadeiras limpíssimos. Depois de ela ter assumido a vaga não existente de bibliotecária, ninguém pode passar o dedo nas coisas ou perguntar algo ao pó. Pergunte ao Pó é um dos meus livros favoritos. Imagino que ela gostaria de ler o John Fante. Se o meu projeto não se focasse na literatura produzida por mulheres, eu daria um jeito de conseguir um exemplar para o grupo. E do Crime e Castigo, do Fiódor Dostoiévski, também. Dostoiévski comanda minha vida de leitora, que comanda minha vida de gente, que comanda meus instintos. Eu adoraria poder dar esse crédito a uma autora. Se as mulheres tivessem sido publicadas como são agora, antes de eu ter me tornado uma balzaquiana, é provável que eu poderia.