Confira todos os textos da edição #315
Saudades do Cais Mauá aberto à cidade, por Tiago Medina
Histórias de Autógrafos: Tom Wolfe em “Um Homem Por Inteiro”, por Carlos Gerbase
Thiago Lacerda, medida por medida, por Juremir Machado da Silva
Centenária: Maria, vó minha - Capítulo 11, por Tiago Maria
Mãe, a mais inesquecível dentre os tipos, por Fernando Seffner
Caio, a carroça e a facilidade em destruir, por Gilberto Perin
Amanda Costa: "Caio antecipou muito do que tem sido feito na literatura recente", por Luís Augusto Fischer
Porto Alegre, 1902-06: Máscaras e carrancas nos prédios da capital, por Arnoldo Doberstein
Projeto Gema – Dez anos: Ato II, por Lucas Luz
A medida das coisas humanas: Capítulo V, por Helena Terra
A fila era grande no hall de entrada da Reitoria da UFRGS. Um homem de quase 80 anos, vestindo um elegantíssimo terno branco e gravata azul, autografava rapidamente e distribuía sorrisos para seus leitores. Uma bengala de uns mil dólares apoiava-se à mesa em que estava sentado. Tom Wolfe acabara de proferir a palestra O espírito da nossa época no ciclo Fronteiras do Pensamento, em novembro de 2009. Achei a palestra confusa, com críticas à obra de Darwin que não entendi direito. Mas ali estava um escritor que eu admirava muito. Em minha mão, segurava o romance Um homem por inteiro, em que eu pediria sua assinatura.
Escolhi esse livro em particular, entre os vários do autor em minha estante, porque sabia da polêmica que um texto de John Updike tinha gerado alguns anos atrás. Updike, em crítica na revista The New Yorker, escrevera que o romance tinha "montes de entretenimento, e não literatura, nem mesmo aquela literatura sem grandes ambições”. Wolfe respondeu dizendo que Updike era “um monte de ossos” e que formava, ao lado de Norman Mailer e John Irving, “os três patetas” da literatura contemporânea. Briga boa! Eu, que admirava tanto Wolfe quanto Updike, estava com uma pergunta engatilhada para Wolfe, mas não sabia se teria coragem de fazê-la quando chegasse minha hora de estender o livro para ele.
A fogueira das vaidades, primeiro romance de Tom Wolfe, mostrou ao mundo, na década de 1980, que o papa do New journalism, autor de reportagens e crônicas que revolucionaram a mídia impressa de qualidade, também era capaz de contar histórias ficcionais. Sempre houve um tanto de ficção nos trabalhos jornalísticos de Wolfe. Os eleitos, O teste do ácido do refresco elétrico e Radical Chic e o novo jornalismo são clássicos: estilo refinado, personagens bem construídos, muito humor e críticas arrasadoras a aspectos que considerava detestáveis (ou simplesmente bregas) da sociedade norte-americana.