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A Odisseia no dia de outra odisseia

Parêntese #340

A Odisseia no dia de outra odisseia
Odisseia de Christopher Nolan. Reprodução: CNN Brasil

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Assistir a um filme da magnitude de Odisseia, com a competente e por vezes magistral direção de Christopher Nolan, exatamente no mesmo dia da final de uma Copa do Mundo, sempre e também uma odisseia de final imprevisível para os que chegam lá, foi quase um exercício de analogia. E, aqui, no caso, uma coincidência provocada por minha própria escolha de preferir ver o filme naquele dia, agora já passadas algumas semanas, mas ainda em tempo de fazer algumas digressões.

Falemos do filme, então, a começar pela desconstrução do nome desse personagem tão mitológico quanto simbólico. A adoção da grafia latina o consagrou em nossa memória como Ulisses, que imediatamente nos faz lembrar da lendária Penélope em sua resiliente espera pelo herói em Ítaca. Mas que classe de herói é esse? Indo mais além do que a palavra encerra quando pensamos nos códigos narrativos que nos falam da “jornada do herói”, conceito desenvolvido pelo escritor estado-unidense Joseph Campbell, reconhecido por seus estudos de mitologia e pelos impactos desta nas narrativas ao longo dos tempos. E no filme, como na narrativa grega original, Odisseu propõe o que poderia ser um último caminho para a tomada – e vingativamente, de maneira brutal, a destruição – de Troia, na busca de sua recompensa, segundo a lógica de Campbell. 

Esse lampejo de algo fora do contexto dessa guerra, que já durava 10 anos sem nenhum sucesso para gregos e espartanos, revela por primeira vez a astúcia de Odisseu. E, talvez diriam os próprios gregos em seu tempo, decisão manejada por Kairós, filho mais novo de Zeus e o Deus do Tempo Oportuno. A ideia de um cavalo gigante de madeira, deixado na praia como símbolo da desistência dos gregos e, de alguma maneira, como suposto reconhecimento de sua derrota, se afigurou como uma oferenda à Deusa Atena. Ação sagaz e traiçoeira que a literatura consagrou através dos tempos em uma das figuras metafóricas mais duradouras, o chamado “presente de grego”. Nessa história, já adaptada inúmeras vezes no cinema, vemos algo bastante improvável funcionar, um cavalo de madeira que abriu as portas da colossal e intransponível muralha da cidadela troiana, levado cidade adentro pelos próprios troianos. Uma estratégia de alto risco onde desponta, no filme de Nolan, um primeiro exercício de recusa do glamour mitológico e do romantismo lúdico desse dispositivo quase mágico que deu o passaporte de entrada às tropas helênicas. A espera interminável dos soldados espartanos e gregos, feito sardinhas, espremidos dentro daquele espaço exíguo, esperando que o cavalo fosse arrastado e chegasse seguro ao interior das muralhas, não é apresentada como uma jornada romântica, mas como a pior das experiências, uma empreitada cheia de agruras e sem nenhuma garantia de retorno. O aspecto trash de como é retratada no filme, com certo grau de realismo escatológico, nos põe à mostra a própria perspectiva suja da guerra. 

Mas tomada Troia, em um enredo dos mais conhecidos na história, onde o sucesso é celebrado como obra da trapaça e do engano, muito acima das convenções morais mais elementares, é aí que verdadeiramente se inicia a jornada do herói como protagonista. Aqui com Odisseu já não mais a serviço da obsessão de Menelau, mas crendo ser senhor de seu próprio destino, ou até onde os Deuses permitissem. Um herói que deseja seguir seu próprio caminho, ou pensa que sim, ao rejeitar a melhor e mais segura rota marítima de volta a Ítaca. Assim, em uma notável ambiguidade, vemos um herói que, dez anos longe de casa e vencida a guerra, tal como seus homens, deseja voltar a seus domínios, mas escolhe a rota mais arriscada. E assim, sem sabê-lo, o destino, sempre desenhado pelos caprichos dos Deuses, lhe prepara uma nova jornada, ou uma nova cilada, onde terá de enfrentar forças muito além de sua compreensão e, quem sabe, de suas capacidades. De alguma maneira, no poema épico de Homero, há um claro aviso sob os aspectos trágicos da ambição humana, se antecipando em vários séculos a Maquiavel, para quem os homens têm uma ambição ilimitada de desejar tudo, mas um poder sempre limitado para alcançar o que desejam. E Odisseu em sua ambicionada volta pra casa e para a retomada de seu trono em Ítaca, comete o mais elementar dos erros, se julgar acima dos elementos, nesse caso representados pela força e imprevisibilidade do humor de Poseidon.

Conversando com amigos que também assistiram ao filme, chegamos a uma conclusão consensual, que não vale comparar o filme à Odisseia original, de Homero. E muito menos buscar “desvios narrativos” na obra fílmica em relação ao original literário. Em primeiro lugar porque o cinema, sempre que flertou com a literatura ou se propôs a adaptar uma obra, parcial ou integralmente, nunca deixou de se apoiar na licença poética. Não somente pela questão temporal e espacial, pois o que funciona em uma ou centenas de páginas não se encaixa nos exíguos frames em sucessão, que dão vida e movimento à imagem. O que captura um leitor na obra literária se opera por códigos próprios e singulares, às vezes excessivamente descritivos, dependendo do método do autor. No cinema essa indução à subjetividade tem que ser mostrada através de recursos objetivos da imagem e som que permitam pelo menos vislumbrar algo do estado de ânimo e da subjetividade dos personagens. A obra original atribuída a Homero já é em si inventiva, nutrida de um imaginário fantástico com criaturas e seres, todos eles de alguma forma gestados pela força ou caprichos das divindades. E nesse ponto temos relativa fidelidade no filme, ali estão praticamente todos esses personagens. Mas vale aqui um parêntese, o próprio suposto autor desse poema épico, assim como da Ilíada, tem hoje não só sua autoria mas sua própria existência questionada, tanto por renomados filólogos como o alemão Friedrich August Wolf, no final do século XVIII, como por estudiosos contemporâneos da literatura, em especial pela falta de provas preservadas de escrita para poemas tão longos, que mais provavelmente tenham resultado de compilações através da tradição oral ao longo dos séculos.

Mas mais além disso e voltando ao filme, se trata da captura do espectador, e as imagens, sugestivas ou explícitas, têm que obrar para que fiquemos mobilizados e envolvidos, com desejo de interferir na trama, ou seja, tomar partido. E para que funcione, é nosso herói em primeiro lugar quem tem que nos induzir a isso. Esse personagem só assume grandeza e aciona nossos sentidos mais diversos, assim como pode provocar nossa adesão, quando detectamos humanidade em suas ações e, por que não, contradições em seus comportamentos, evitando o clichê maniqueísta das boas ações. É nesse personagem multifacetado e por vezes ambíguo que, de certa forma, vemos parte de nós ali refletida. Cabe ainda dizer que as narrativas de livros considerados sagrados, nos mais variados panteões divinos ao longo dos séculos, sempre foram um espelho das contradições humanas, onde desejo, incesto, trapaças, traições, mentiras e vinganças se entrecruzam constantemente com ações de justiça e benevolência. Em alguns desses livros, mesmo ações de grande violência e discutível caráter ético são respaldadas e apoiadas em juízos de valor que se somam a tabus. E isso atravessa com claridade a narrativa da Odisseia, que, mais de 2.700 anos depois, ainda mostra dilemas humanos de eterna atualidade, entre eles a conquista, domínio e preservação de territórios, físicos ou emocionais.

O que torna aqui o filme de Nolan tão interessante além de sua grandiosidade, como esse storytelling exige? Em primeiro lugar podemos nos atrever a dizer que é um filme "sujo", que praticamente nega o pastiche do erotismo grego, que já vimos em vários filmes, como em 300, a ascensão do império, de Zack Snyder, ou em Alexandre, de Oliver Stone. Aqui, o filme deixa duas beldades como Anne Hathaway e a deslumbrante Charlize Theron (quase) despojadas de seus encantos e em situação de mostrarem seus reais atributos dramáticos. A própria escolha de Tom Holland, completamente fora dos standards apolíneos do cinema convencional, para viver o filho de Odisseu, Telêmaco, reforça essa disposição. Impossível não observar que a questionada opção por Matt Demon para o protagonismo da história, que precedeu o lançamento do filme, demonstrou não somente ser acertada, como revela um arco dramático mais amplo desse ator, daquilo que podemos ver em vários de seus filmes, em especial os de ação. E, por fim, ainda no quesito elenco, além das ótimas escolhas por Elliot Page e Samantha Morton, fica, em contraponto, um deficit mais que evidente com o mesmo de sempre de Robert Pattinson, vivendo um quase antagonista, Antínoo, por demais estereotipado no filme. 

Um quase, porque esta não é uma história em que o antagonista na jornada de Odisseu se encontra no território humano. Parte importante do antagonismo repousa na mente do personagem, dele consigo mesmo e suas escolhas, como, sem sombra de dúvidas, sua rota de colisão com o etéreo mundo divino, ou uma parte dele. Desde o Olimpo, onde a fúria de Poseidon com as diatribes de Odisseu lhe impõe terríveis tempestades, em especial após este cegar seu filho, o Ciclope Polifemo, às manipulações cúmplices de Atena, vemos o jogo de disputa entre os Deuses gregos, onde os humanos são cartas de um jogo complexo de permanente guerra divina, como encontramos também entre os deuses nórdicos. Vale observar que Polifemo, após Odisseu e seus homens ficarem aprisionados em sua caverna na busca de comida, é mostrado no filme como um dedicado e afetuoso pastor com suas ovelhas, mas capaz de devorar esses humanos que ousaram invadir seu território mais íntimo. O filme nos remete aqui a nossa própria infância e aos porões de nossos medos, mas também oferece, aos amantes da arte, um requinte, pois um dos planos parece claramente inspirado ou em homenagem a uma das pinturas mais sombrias de Francisco de Goya, “Saturno devorando um filho”, hoje exposta no Museu do Prado, em Madri.

Diferente de filmes como Troia, que abusa na sofisticação e estilização de ambientes e personagens, assim como opta por tons solares e uma narrativa linear convencional, sempre presentes nos filmes de Wolfgang Petersen, a paleta de cores escolhida por Nolan é puxada pro cinza, com luzes em tons baixos e frios, exceto escassos momentos permitidos ao júbilo, em que Odisseu desfruta da companhia luminosa da ninfa Calipso. Por esse caminho de atmosfera sombria, por vezes taciturna e melancólica, temos uma trilha musical densa, tocante e entrelaçada de maneira sutil e discreta com o andamento do filme. E aqui mais um ponto a demonstrar a sofisticação de Nolan, pois a música principal que embala a trilha se desenvolve através de um processo investigativo que envolveu uma pesquisa arqueológica sobre a sonoridade daquele período e envolveu a construção de instrumentos semelhantes aos originais da Grécia, como a lira e a flauta dupla, chamada aulos. Além da busca de uma identidade sonora daqueles tempos, conduzida de maneira refinada e bastante original pelo compositor e diretor musical sueco Ludwig Göransson, se trata de uma trilha não invasiva e que sabe ser épica, com uso de sintetizadores, quando necessários. 

É notável ver como a trilha reforça emocionalmente o sofrimento e o desespero de Odisseu amarrado ao mastro do barco para não se deixar seduzir pelo canto das sereias. Aqui vemos claramente a opção acertada do diretor ao não conceder espaço, uma única vez, à sedução da nudez, algo que nesse filme seria quase um desvio dramatúrgico. Na verdade não vemos nitidamente as sereias, que aparecem sugeridas como corpos nus sobre as pedras, mas desfocadas, ao longe. Também essa exclusão proposital confere força a ideia e coerência interna do filme, pois nos oferece a possibilidade de ver aqueles homens, navegando há tanto tempo, desprovidos dos prazeres da vida, entre eles o sexo, como indivíduos aprisionados em suas próprias mentes, querendo algo que não podem ter, o que persegue praticamente todos os personagens, que experimentam a conquista apenas no território da impermanência, como o triunfante Agamenon, assassinado por Clitemnestra em sua volta a Esparta. Como no poema homérico Odisseu segue pagando suas penas e Nolan nos oferece mais um aspecto filosófico de seu ensaio cinematográfico, quando o barco de Odisseu aporta em uma misteriosa ilha, onde a chaminé fumegante de uma cabana no alto do morro se torna uma busca obrigatória a sua tripulação faminta. Circe, a mítica feiticeira, os recebe com sorrateira cordialidade e doçura, como no conto de autoria apropriada pelos Irmãos Grimm, e o que vemos é um rústico e pequeno banquete pantagruélico, que lembra as metáforas de Rabelais, onde a brutalidade e grosseria humana se expressa metaforicamente nos excessos à mesa, mais do que apenas para saciar a fome. Aqui, mais uma vez é a sagacidade de Odisseu ao ludibriar a feiticeira Circe e recuperar a tripulação de seu barco, que sugere a diferença entre os caminhos da inteligência e da força e quando um ou outro atributo é adequado, nos dando a escolha de fazermos nosso próprio juízo de valor.

O filme é grande nesse passeio entre o mitológico/fantástico e arroubos quase filosóficos, oferecendo um painel instigante sobre o que nos traz de ensinamentos essa obra fundacional da literatura ocidental. Peca, entretanto, nas sequências que encerram o terceiro ato, ao converter a artimanha de Odisseu para matar a maior parte dos pretendentes de Penélope, desprovida de juízo moral, em um jogo de cena semelhante a tantos que vemos em filmes estrelados por Jason Stathan e Dwayne Johnson, repetindo o surrado clichê heroico do um contra todos, onde talvez a introdução de uma pitada mais de astúcia evitasse isso. Ainda que valha considerar ser extremamente bem filmada e coreografada essa cena de luta. O resultado final, no entanto, deixa certo aforismo carregado de preceito moral, pois o que não matou Odisseu o fortaleceu: seu filho assume por direito dos homens o poder em seu lugar e a ele, com a fiel companhia de Penélope, caberá o exílio, pelas mortes que causou. De alguma maneira a prevalência da justiça como afirmação do contrato social, elo civilizatório primordial para se viver em sociedade.

Enfim, em geral se trata de um bom e digno filme, com momentos de inteligência refinada e outros tantos que cabem às epopeias em geral, mas, por que não dizer, uma experiência cinematográfica compensatória a nós, espectadores.