Pular para o conteúdo

Correndo na chuva

Crônica de uma noite em Paris

Correndo na chuva
Outono chuvoso em Paris | Fotos: Ana Cláudia Rodrigues

Em uma noite de novembro de 1991 eu me vi correndo na chuva gelada de Paris. Fazia menos de dois meses que estávamos morando na França e eu sentia saudades do dia a dia de jornalista na Zero Hora.

Ao passar diante da redação envidraçada do jornal Le Monde, perto da nossa casa, tive uma espécie de epifania: eu tinha de fazer, além do doutorado em sociologia na Sorbonne, jornalismo na Europa. Menos de dois anos depois, seria recontratado como correspondente da ZH na capital francesa.

Nesta segunda-feira, ao voltar de trem, junto com meu colega e amigo Roberto Chiachiri, de Meudon, na periferia de Paris, onde participamos da reunião do conselho editorial da revista científica Hermès, dirigida por Dominique Wolton, desci na Estação Montparnasse para ir a um endereço na rua do Cherchi-Midi, que desemboca na pracinha Camille Claudel, no entroncamento das ruas Falguière e Vaugirard, quase em frente ao Mont-Tonnerre, ruazinha sem saída onde vivemos por muitos anos. Quando botei o pé na rua, chovia muito, uma água fina e gelada, cortante, capaz de se infiltrar por tudo. Olhei a escuridão da noite e mergulhei em direção à minha velha conhecida, a rua Falguière outrora do Le Monde.

Quando me vi correndo, como se repetisse uma noite de 35 anos atrás, senti uma sensação esquisita de déjà-vu, como se meus passos corressem para trás e toda a minha juventude passasse pela minha cabeça ensopada.

Cada lugar ressurgia como se eu nunca tivesse saído daquele passado tão cheio de dúvidas e esperanças num futuro que eu não percebia com clareza. Vi a nossa velha padaria, a antiga casa do grande jornal transformada num instituto, o florista, o cruzamento das ruas que faziam parte do meu cotidiano.

Nada demais.

Há coisas que custam muito para mudar, ainda mais numa cidade milenar como Paris. A questão era interna. Um turbilhão de emoções guardadas, esquecidas, acumuladas. Eu corria na direção de Saint-Placide, onde moraria na época um amigo, na casa de quem eu deveria jantar desta vez, mais tarde, em outro endereço, distante dali, como se a chuva fosse um artifício para acionar memórias de um tempo de sonhos que insistiam em se projetar por cima da realidade.

O novo banho de chuva fazia escorrer lembranças aparentemente sem importância. A água brilhava nas partes pretas das calçadas, típicas das vias parisienses, e nos capôs de uma infinidade de carros ainda no horário de ponta. Tudo tremelicava como se uma mão insegura segurasse um celular para filmar um instante banal de uma cidade cheia de pulsação e de incógnitas.

Talvez por ter escrito tantas crônicas na vida, eu via uma crônica a cada passo. A chuva fria alongava o percurso, os lugares familiares seguravam meus passos, as imagens desfocadas multiplicavam-se em tantas outras, como se saíssem de uma boneca russa ensopada, as buzinas dos carros eram a sinfonia da noite na cidade grande, os faróis lembravam doces pirilampos de uma alguma campanha pacata. Comecei a pensar que, se estiver vivo dentro de 20 anos, lembrarei desta corrida na chuva fora do programa, inadequada para um sexagenário, solitária, mas curiosamente divertida, como se eu fosse novamente um jovem de 30 anos.

Eu corria para fugir da chuva, para encontrar Cláudia num café de esquina e para visitar um senhor de 104 anos, certo Edgar Morin.

A vida gosta de lembranças sem nexo e de chuvas inesperadas.

Sem pressa antes de um banho de chuva
As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

Todos os artigos

Mais em França

Ver tudo

Mais de Juremir Machado da Silva

Ver tudo