Confira todos os textos da edição #322
- 19 de abril: Presença, resistência e extermínio dos Povos Indígenas, por Cristiano Goldschmidt
- Bibliotecas abertas, por Ângela Hoffman
- O dia em que a prefeitura “importou” 15 músicos da Itália, por Álvaro Santi
- Saramago sai e quem perde é a geração futura, por Alfredo Fedrizzi
- Meu affair com Theo, por Ondina Fachel Leal
- A substituição do pensamento, por Marlon Pires Ramos
- O Rock Gaúcho – Parte IV, por Arthur de Faria
- O tigre de olhos verdes, por Sergio Faraco
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 2, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu – Capítulo II, Marlon Pires Ramos
- Refil (da meada), a epistemologia da saudade em Diego Grando, por Augusto Quenard
- A boneca e a sobrevivente do holocausto, por Juremir Machado da Silva
O calendário, essa invenção meticulosa que pretende domesticar o tempo, marca com discrição quase burocrática o 19 de abril: “Dia dos Povos Indígenas”. Como se fosse possível — ou aceitável — confinar em um único quadrado a imensidão de mundos que essa inscrição tenta abarcar. Há, nesse gesto aparentemente inocente, uma violência silenciosa: a de reduzir milênios de existência, memória e presença a uma data administrável, pronta para ser lembrada e, logo em seguida, esquecida. Porque aquilo que se tenta fixar ali — em tinta, número e rotina — não se deixa conter: são vidas, cosmologias, territórios e modos de ser que transbordam qualquer margem imposta pelo tempo dos homens.
Antes que o tempo fosse dividido em semanas, antes que o espaço fosse recortado em mapas, antes que o próprio nome “Brasil” fosse pronunciado pela primeira vez, já havia aqui uma inteligência antiga em pleno exercício de viver. Havia línguas que nomeavam o mundo sem a pretensão de possuí-lo, havia corpos que caminhavam a terra sem a necessidade de dominá-la. Havia, sobretudo, uma relação — fina, complexa e contínua — entre gente e território, que não passava pela lógica da conquista, mas pela experiência do pertencimento.
Então chegaram.
E o verbo, assim seco, não comporta o que veio junto: as febres invisíveis, os metais reluzentes, as palavras incompreensíveis, as promessas vazias. Chegaram com suas cruzes erguidas como certezas e suas armas apontadas como argumentos. Trouxeram consigo não apenas um outro mundo, mas a convicção de que ele deveria substituir todos os demais.
O encontro, que poderia ter sido diálogo, tornou-se ferida.
E a ferida, como tantas na história, foi sendo reaberta ao longo dos séculos. Mudaram-se os rostos, refinaram-se as justificativas, sofisticaram-se os instrumentos — mas a lâmina, no fundo, permaneceu a mesma. Se antes avançava em nome da fé e da coroa, hoje avança em nome do progresso, essa palavra polida que costuma esconder o ruído das árvores caindo.