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A alma de uma cidade à prova d’água

Há poucas semanas grande parte de Portugal passou por algo semelhante ao que Porto Alegre viveu no ano passado: sentiu a fúria dos ventos e das águas. As tempestades, com ventos que chegaram a 206 km/h, varreram o país e deixaram um rastro de destruição enorme. Um lembrete sombrio de que a natureza não negocia com a complacência.

A imagem de ruas transformadas em rios, casas alagadas, encostas desbarrancadas e estradas varridas ecoa, de forma dolorosa, a catástrofe que se abateu sobre a capital gaúcha em 2025. A memória daquela enchente, que submergiu bairros e vidas, não é apenas uma cicatriz local; é um alerta global sobre a fragilidade de nossas cidades diante de um clima em mutação.

Os sistemas de proteção contra eventos climáticos extremos, concebidos décadas atrás, revelam-se incapazes de conter essa nova realidade, onde os desastres se tornaram mais constantes e mais destruidores.

O que se faz quando a infraestrutura que deveria ser a guardiã da cidade se torna cúmplice de sua ruína? A resposta não pode ser apenas consertar o que quebrou. É preciso reconstruir o próprio caráter da cidade, sua relação com o ambiente e seu contrato social.

Lutar contra ou aprender a conviver com a água

A jornada para a resiliência é, antes de tudo, uma jornada de humildade. É reconhecer que não podemos mais “lutar contra a água”, como os holandeses aprenderam após décadas de batalhas. Precisamos aprender a “conviver com a água”. E com ventos fortes, secas, incêndios florestais, calor excessivo. Esta mudança de paradigma, detalhada em estudos sobre as cidades mais protegidas do mundo, é a pedra angular de uma reconstrução significativa.

Os holandeses, mestres na arte da gestão hídrica, oferecem um modelo inspirador. Eles não apenas constroem diques mais altos; eles criam “espaços para o rio”. Parques que em dias de sol são áreas de lazer, em dias de chuva, se transformam em bacias de contenção. Telhados verdes e pavimentos permeáveis transformam a paisagem urbana em uma esponja, absorvendo o impacto das chuvas intensas. Este conceito de “cidade-esponja” não é apenas uma solução de engenharia; é uma filosofia de design urbano que integra a natureza à malha da cidade, melhorando a qualidade de vida enquanto protege seus cidadãos.

O Japão, país acostumado com tufões, tsunamis e terremotos, por sua vez, nos ensina sobre a importância da preparação obsessiva e da tecnologia. Sistemas de alerta precoce que enviam mensagens para cada celular, sirenes que ecoam em áreas de risco, e uma cultura de simulados constantes nas escolas e comunidades criam uma sociedade em estado de prontidão. A tecnologia, aqui, não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para fortalecer o capital humano e social.

Um Novo Contrato Social para Porto Alegre

Adaptar essas lições para Porto Alegre exige um novo pacto cívico. A reconstrução deve ser um processo profundamente democrático, envolvendo as comunidades na concepção das soluções. As decisões sobre o uso do solo, especialmente em áreas de risco, não podem mais ser tomadas a portas fechadas. A participação cidadã no monitoramento da infraestrutura de proteção, pode transformar cada morador em um guardião da cidade.

A educação é a semente dessa transformação. Assim como em Bangladesh, onde a educação comunitária sobre os riscos das monções é uma questão de sobrevivência, Porto Alegre precisa inserir a resiliência climática no DNA de sua população. Desde o currículo escolar, com simulados de evacuação, até campanhas públicas que expliquem por que certas áreas não devem ser ocupadas, a cidade precisa se tornar uma sala de aula a céu aberto sobre como viver em um mundo mais imprevisível.

O conceito de “Reconstruir Melhor” (Build Back Better), adotado globalmente, deve ser o mantra de Porto Alegre. Cada casa, cada rua, cada escola reconstruída deve ser mais inteligente e mais integrada ao ambiente do que sua versão anterior. Isso requer um compromisso financeiro robusto e contínuo, blindado das conveniências políticas. Uma lei que garanta um percentual fixo do orçamento para a resiliência climática, como faz a Holanda, não é um luxo, mas uma necessidade existencial.

Aproveitando as experiências de outras cidades, Porto Alegre pode se tornar mais sábia, mais unida e mais consciente. A dor da perda pode ser o catalisador para uma renovação profunda, transformando a capital gaúcha em um farol de resiliência para o Brasil. A alma de uma cidade não é medida por seus edifícios, mas pela forma como ela cuida de seu povo e se prepara para o futuro. É hora de reconstruir a alma de Porto Alegre.

As opiniões emitidas pelo autor não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Alfredo Fedrizzi

Está terminando o Mestrado em Antropologia na Universidade de Lisboa, atuando em Conselhos de Administração e como Mentor. Ex-professor de Televisão na PUC, ex-publicitário e autor do livro O Humor Abre Corações. E Bolsos.

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