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Bibliotecas abertas

Parêntese #322

Bibliotecas abertas
Foto: Giorgio Trovato / Unsplash

Em abril comemora-se o Dia Nacional da Biblioteca, e a data nos traz a reflexão sobre as condições com que estas, por meio de seus espaços, recursos e acervos, existem em nossa sociedade. Mas hoje despertei com uma recordação importante que me levou a um outro lugar que também guarda referências. Em tempos que necessitamos cultivar a delicadeza nas relações afetivas, volto um passo na memória e percebo que a ausência de uma pessoa querida me deu de presente uma descoberta: a de que pessoas são bibliotecas vivas e singulares. 

A saudade me proporcionou lembrar da fragrância de uma pessoa amiga, do brilho do olhar que me falta ver, a sonoridade da voz, a inteligência, o quanto de afeto nos uniu e nos separou. Em sua presença frequentava uma identidade que só com ela fazia sentido, que nasceu, cresceu, e se esgotou um dia, na sua morte física. Uma identidade que se esvai lentamente: a de ter sido sua amiga, a de ter sido alguém para outro alguém, sem mesmo saber o quanto lhe significava, mas que nutria algo comum quando estávamos juntas, quando lhe recebia em minha casa, quando nos cruzávamos nos corredores da escola, quando vinha com a xícara de café entre as duas mãos, parecendo buscar se aquecer em qualquer estação. Muito do que permaneceu em mim foram sensações, satisfazendo-me com o que dela percebia, nos comunicando no luxo das entrelinhas. Foi pouco tempo, se for contar em medida de anos, pouco tempo de convivência. Mas a falta me ensina do quanto aprendia com essa biblioteca viva onde me consultava. Também lhe perscrutava, admirando-a por me ofertar o gosto pela minha humanidade, assumindo-se no construtivismo de ser mulher, mãe e professora.