Confira todos os textos da edição #322
- 19 de abril: Presença, resistência e extermínio dos Povos Indígenas, por Cristiano Goldschmidt
- Bibliotecas abertas, por Ângela Hoffman
- O dia em que a prefeitura “importou” 15 músicos da Itália, por Álvaro Santi
- Saramago sai e quem perde é a geração futura, por Alfredo Fedrizzi
- Meu affair com Theo, por Ondina Fachel Leal
- A substituição do pensamento, por Marlon Pires Ramos
- O Rock Gaúcho – Parte IV, por Arthur de Faria
- O tigre de olhos verdes, por Sergio Faraco
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 2, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu – Capítulo II, Marlon Pires Ramos
- Refil (da meada), a epistemologia da saudade em Diego Grando, por Augusto Quenard
- A boneca e a sobrevivente do holocausto, por Juremir Machado da Silva
Em abril comemora-se o Dia Nacional da Biblioteca, e a data nos traz a reflexão sobre as condições com que estas, por meio de seus espaços, recursos e acervos, existem em nossa sociedade. Mas hoje despertei com uma recordação importante que me levou a um outro lugar que também guarda referências. Em tempos que necessitamos cultivar a delicadeza nas relações afetivas, volto um passo na memória e percebo que a ausência de uma pessoa querida me deu de presente uma descoberta: a de que pessoas são bibliotecas vivas e singulares.
A saudade me proporcionou lembrar da fragrância de uma pessoa amiga, do brilho do olhar que me falta ver, a sonoridade da voz, a inteligência, o quanto de afeto nos uniu e nos separou. Em sua presença frequentava uma identidade que só com ela fazia sentido, que nasceu, cresceu, e se esgotou um dia, na sua morte física. Uma identidade que se esvai lentamente: a de ter sido sua amiga, a de ter sido alguém para outro alguém, sem mesmo saber o quanto lhe significava, mas que nutria algo comum quando estávamos juntas, quando lhe recebia em minha casa, quando nos cruzávamos nos corredores da escola, quando vinha com a xícara de café entre as duas mãos, parecendo buscar se aquecer em qualquer estação. Muito do que permaneceu em mim foram sensações, satisfazendo-me com o que dela percebia, nos comunicando no luxo das entrelinhas. Foi pouco tempo, se for contar em medida de anos, pouco tempo de convivência. Mas a falta me ensina do quanto aprendia com essa biblioteca viva onde me consultava. Também lhe perscrutava, admirando-a por me ofertar o gosto pela minha humanidade, assumindo-se no construtivismo de ser mulher, mãe e professora.