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Entre o mundo e eu – Capítulo II

Parêntese #322

Feito de Amor e Raça

O barulho das muletas era o que chamava minha atenção. 

Demorei para entender que esse barulho iria nos acompanhar sempre. Em todos os momentos. Até os mais íntimos. Depois da transa, ela ia tomar banho, levantava da cama, pegava as muletas, e ia pro banheiro. O barulho das muletas chamava mais minha atenção do que o motivo de usá-las. Lembro como se fosse hoje. Eu estava naquele bar Chapa Quente. Era domingo. Estava quente. Almocei e fiquei esperando. Disse que iria ver uma amiga e depois iria ao encontro. Esperei. Esperei. Esperei. Daí ela chegou. Esbaforida. Respirando fundo. Dizendo que correu para não demorar. Sorriu. E o sorriso me ganhou.

Eu sempre soube que ela era fonoaudióloga. Mas foi só ouvindo ela falar, com toda propriedade da profissão, que fui realmente construindo essa imagem. Quando começamos a conversar no instagram mesmo, no início era uma curtida aqui, um comentário lá, em algum momento que não lembro qual, começou a trocação pura.

Até que aconteceu esse encontro. 

Uma energia tão forte enquanto falava que eu ficava hipnotizado. Comecei falando de outra mina que eu estava saindo na época e que não deu certo. E o absurdo da coincidência foi que a Raquel já tinha sido paciente da Natália. Em Porto Alegre existem dois tipos de pessoas: amigos de amigos, e ex de alguém. E foi aí que a conversa foi indo para outro lado. Sei lá por que ela tinha a mania de dar conselhos. Começou a falar de várias coisas excitantes pra eu fazer com a Raquel. Leva ela em tal lugar, passa a mão assim, beija aqui. Fazia gestos, rindo sempre, me tirando pra inocente. Falei: vou fazer isso contigo. Ficamos os dois rindo, bebendo cerveja, pensando possibilidades.