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Alejandro Brittes viaja no tempo para explorar as relações entre chamamé e música barroca

Alejandro Brittes viaja no tempo para explorar as relações entre chamamé e música barroca
Foto: Eduardo Rocha

Nascido em uma casa chamamecera de Buenos Aires, o compositor Alejandro Brittes observa desde muito cedo as relações entre o chamamé e a música barroca que integram o álbum L(Este), lançado em dezembro de 2022. Aos 12 anos, começou a estudar acordeón e logo após ingressou em um conservatório. A partir de então, com um pé em sonoridades sul-americanas e outro na tradição de concerto europeia, deu início a sua trajetória como acordeonista, compositor, intérprete e pesquisador.

O nono álbum do músico argentino – escute aqui – será apresentado no dia 16 de janeiro, às 20h30, no Theatro Guarany, em Pelotas, integrando a programação do 11° Festival Internacional Sesc de Música. Ao longo de oito faixas, o compositor radicado em Porto Alegre há 13 anos revisita e atualiza o encontro entre a musicalidade de povos originários – com olhar centrado nos Guaranis – e a música barroca trazida por padres para as Missões Jesuíticas, em países como Argentina, Brasil e Paraguai, a partir do século 17. (L)Este foi viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e está disponível em formato físico e digital.

Para traduzir a pesquisa da “matriz ancestral do chamamé”, como define Brittes, o compositor convidou o maestro Fernando Cordella para a direção musical e criação dos arranjos de uma orquestra de câmara barroca. “Quando o Alejandro me convidou, a ideia inicial foi reunir elementos do barroco nos arranjos dos instrumentos de corda, utilizando uma instrumentação muito semelhante a que os indígenas tocavam pós-Companhia de Jesus”, conta Cordella no episódio 3 do webdocumentário que apresenta o projeto.

“Essa fusão nos trouxe uma experiência da música contemporânea do Alejandro com referências da polifonia da escrita barroca nos instrumentos de época, que deu esse terceiro produto”, completa o maestro.

Os instrumentos chamameceros ficaram a cargo de André Ely (violão de sete cordas), Carlos Eduardo de Césaro (contrabaixo), Ricardo Arenhaldt (percussão) e Brittes (acordeón). Somaram-se a eles, na orquestração barroca, Diego Biasibetti (violoncelo e viola de gamba), Giovani dos Santos Marcio Cecconello (violinos), Javier Baldinder (oboé) e Cordella (cravo).

Foto: Eduardo Rocha

Dois dias após o tricampeonato mundial da Argentina, ainda empolgado com a conquista, Brittes contou por telefone o que buscou ao gravar o álbum ao vivo, em maio de 2022, na Igreja La Salle, em Canoas. “Queríamos a textura de como foram esses encontros musicais dentro de uma igreja da época dos jesuítas, remetendo também ao som do primeiro ser humano que pegou dois gravetos em uma caverna e começou a fazer música”, explica o compositor.

“Todas aquelas informações que nossos povos originários absorveram, passando por processos históricos de independência e pela chegada de imigrantes no século 19, foi se transformando em chamamé, que no álbum percorre um caminho de volta à música erudita”, descreve Brittes.

O compositor analisa aproximações entre as duas tradições, observadas em aspectos que vão das danças guaranis às sonoridades tanto originárias como europeias. “Na música barroca, temos o baixo contínuo, um ‘colchão’ de notas que dá sustentação harmônica à melodia principal. Essa polifonia representa o ser humano e o impuro, dando sustentação à melodia principal, de notas agudas, que tenta alcançar Deus. No chamamé, encontramos essas características nos fundos musicais que acompanham as duplas vocais ou o solista”.

Em 2021, Brittes e a historiadora Magali de Rossi, produtora-executiva de (L)Este, lançaram o livro A Origem do Chamamé (2021), viabilizado pela Lei Aldir Blanc por meio do edital Diversidade das Culturas (Secretaria de Estado da Cultura / Fundação Marcopolo). No texto de apresentação da pesquisa, o historiador Tau Golin observa que os autores “retiram o Chamamé da visão localista e o colocam, com sua particularidade e grandeza, na dimensão universal”. Golin aponta ainda a transversalidade do estudo, atravessando saberes musicais, históricos e antropológicos.

Nas conclusões do livro, Brittes e Rossi ressaltam que “futuras indagações poderão ser respondidas se buscarmos no campo simbólico, no imaginário, na memória e na religiosidade, pois, é ali onde ainda temos resquícios de uma ancestralidade”. Obra de fôlego, o livro tem 19 capítulos que percorrem temas como a música na Idade Média, a ritualidade dos Guaranis e a música nas Reduções Jesuíticas e no período posterior ao Tratado de Madri (1750), que demarcou os territórios espanhol e português na América do Sul.

O álbum (L)Este reúne composições de Brittes, coautorias, duas sonatas compostas no século 17 pelo padre jesuíta Domenico Zipoli e Rio Acima, de André Ely. A faixa Vientos del Este, uma das mais belas do projeto, rendeu a Brittes o Prêmio Açorianos de Música 2022 na categoria Melhor Arranjo.

Na conversa por telefone sobre o álbum recém-lançado, Brittes encontra uma síntese para suas investigações ao destacar o caráter de pertencimento do chamamé, que atravessa fronteiras para fazer parte da musicalidade de diferentes culturas sul-americanas. “Isso talvez seja o mais importante: saber de onde viemos e saber o que é nosso.”

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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