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Alicerce promete renovação de contrato e bônus a tutores que não receberam salário

Entidade deve salário a tutores que deram aulas no contraturno de escolas municipais. Contrato foi alvo de auditoria do TCE

Alicerce promete renovação de contrato e bônus a tutores que não receberam salário
Instituto Alicerce foi contratado para prestar serviços no contraturno escolas, no âmbito do Projeto Porto do Saber | Foto: Alex Rocha/PMPA

Em meio a denúncias de atraso nos salários aos tutores contratados como MEIs, o Instituto Alicerce garantiu, em mensagem de texto enviada aos profissionais, a continuidade do projeto em 2026. “A boa notícia vem por conta do novo contrato, que avançou. Em breve deve sair a confirmação do mesmo”, afirmou Paulo Batista, fundador do Alicerce, em mensagens às quais a Matinal teve acesso. 

Batista ainda promete um adiantamento e bônus para quem seguir no projeto. “Estamos criando uma solução para que quem se comprometa a trabalhar no novo contrato receba um adiantamento, o que será possível com os recursos do novo contrato, que serão adiantados pela prefeitura”, diz a mensagem, que foi repassada por coordenadores do Alicerce aos tutores. “Quem for selecionado para atuar no novo contrato, receberá um bônus de mobilização condicionado a permanecer quatro meses no projeto”, afirmou o fundador do Instituto. 

Alvo de investigação do Tribunal de Contas do estado (TCE-RS), a parceria entre a prefeitura e o Alicerce para o projeto de aulas de contraturno escolar foi encerrada em dezembro, e o Alicerce alega que a Secretaria Municipal de Educação (Smed) não fez o pagamento relativo ao último dia do mês, deixando dezenas de tutores sem salário.

Print do grupo de comunicados de tutores do Projeto Porto do Saber

A promessa da renovação de contrato seria uma forma de acalmar os profissionais contratados como MEI. “Em dezembro, trabalhei do dia 1º ao dia 20. As aulas iam até o dia 19 e, no dia 20, foi feita uma confraternização do Alicerce”, conta Ana, que preferiu não se identificar nominalmente para evitar represálias.

À Matinal, a Smed afirmou que há um processo em tramitação referente ao novo contrato para as atividades de contraturno, que devem iniciar com o início do ano letivo, "caso o termo de parceria já esteja assinado". Quanto aos pagamentos, a pasta deu explicações contraditórias: reconheceu que, em janeiro, não foi feito pagamento ao Alicerce, uma vez que o TCE só permitiu a continuidade do Programa Porto do Saber até dezembro, o que confirma a versão dada pelo Alicerce de que os valores não foram repassados. 

Ao mesmo tempo, a Smed afirmou que “os pagamentos, de nossa parte está tudo regular”, sem apresentar comprovantes. “O pagamento é de dezembro, glosando os alunos não atendidos de novembro”, disse em nota. No Portal da Transparência, um valor de R$ 25.650,32 consta como liquidado em 4 de fevereiro pela prefeitura ao Instituto Alicerce. A descrição do valor é “Repasse à OSC Instituto Alicerce para pagamento do Termo de Colaboração firmado com a PMPA. Competência: 01/2026”. Pedimos à Smed um documento que confirmasse se foi realizado pagamento em janeiro, mas a pasta afirmou que não poderia encaminhar tal documento por constarem dados pessoais.

Quanto aos atrasos nos pagamentos, o Alicerce culpa a “inadimplência da prefeitura”. “O Instituto Alicerce não recebeu o repasse da Prefeitura com relação à medição de dezembro de 2025, que deveria ter sido paga em 5/1/2026”, afirma a nota. “Não apenas os professores, mas também os fornecedores do Instituto Alicerce estão sem receber.”

À Matinal, o Alicerce confirmou haver “expectativa de continuidade” do projeto em 2026 e confirmou a oferta de um bônus.

Em tese, segundo uma determinação do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), a Smed não pode seguir com o mesmo contrato com o Alicerce, que foi encerrado em dezembro. Também por determinação do TCE-RS, uma nova parceria só poderia ser feita mediante um novo certame, sem os vícios e as irregularidades encontradas no primeiro, que resultou na condenação de Sebastião Melo (MDB) e do secretário de Educação da capital, Leonardo Pascoal (PL). 

Segundo Ana, o Alicerce sabia que o projeto estava encerrado, mas não foi transparente com os contratados.  “Desde a decisão do TCE, eles sabiam que o projeto tinha data para terminar: 18 de dezembro, com o encerramento do ano letivo nas escolas municipais. Trabalhamos até o dia 20, ou seja, trabalhamos dois dias a mais, achando que receberíamos por isso”, desabafa.

Os representantes da Alicerce também garantiram a continuidade do trabalho – inclusive nas férias. “Não sabíamos que o contrato estava encerrado. O contrato, como MEI, é renovado a cada dois meses. Como entrei em novembro, meu coordenador enviou todos os papéis para renovar o contrato”, afirmou Ana. “Estávamos preocupados de ficarmos parados no verão, durante as férias, e falaram que teria uma colônia de férias, a partir do 5º dia útil de janeiro. Nunca ocorreu, a colônia de férias foi adiada duas vezes e depois cancelada.”

Sem o salário de dezembro e sem a prometida colônia de férias, que traria um alívio ao bolso dos funcionários, Ana já começou a buscar outras oportunidades de emprego. Os funcionários são contratados como pessoa jurídica, com registro de microempreendedor individual (MEI). Os salários são variáveis, de acordo com as horas trabalhadas: o valor da hora-aula é de R$ 17,71.

“O Alicerce falou que o pagamento não foi feito porque a prefeitura não repassou as verbas”, diz Ana. “Mas nosso contrato é com o Alicerce. Não são eles que deveriam pagar a gente?”, questiona a ex-tutora.

Na semana passada, o caso veio à tona em uma postagem da vereadora Karen Santos (PSOL), que recebeu as denúncias dos trabalhadores e pediu explicações à Smed. 

Alicerce foi contratada antes do fim do prazo

O processo de contratação do Alicerce pela Smed foi cercado de críticas: o termo de fomento foi celebrado antes mesmo do prazo final para credenciamento de Organizações da Sociedade Civil interessadas. À Matinal, profissionais contratadas para prestar as atividades de contraturno pelo Instituto Alicerce em outros municípios relataram irregularidades e situações de assédio e violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Os problemas chegaram também a instâncias superiores de controle. Em outubro, o TCE suspendeu a contratação do Alicerce. Além da irregularidade no processo de credenciamento, o conselheiro Estilac Xavier mencionou os valores fixados indevidamente como justificativa para a decisão – de início, a prefeitura pagaria um valor ao Instituto de maneira fixa, independentemente do número de alunos atendidos. 

Em novembro, o TCE reverteu a decisão, permitindo a continuidade do Programa Porto do Saber até o final do ano letivo de 2025, desde que a prefeitura seguisse um termo aditivo para ajustar os valores pagos ao Alicerce – estabelecendo um valor de hora-aula por aluno. 

A decisão do conselheiro Estilac Xavier permitiu que a prefeitura retomasse o processo de credenciamento para as atividades de contraturno, desde que se sigam alguns critérios: atender os prazos fixados; nomear uma nova Comissão de Avaliação, que deve pontuar todos os inscritos no processo; submeter o processo à Procuradoria Setorial da Smed; encaminhar o processo também ao TCE. 

Em resposta à Matinal, o gabinete do conselheiro Estilac Xavier enviou nota explicando que, se forem “cumpridas as determinações constantes na decisão, não há óbice a que seja selecionada a OSC Alicerce”. Ou seja, o Instituto Alicerce pode firmar novo contrato com a prefeitura, desde que se sigam as determinações da medida cautelar.

Alicerce incentiva profissionais a pressionar Smed

Nas mensagens aos funcionários, Paulo Batista, do Alicerce, afirma que o Instituto já se prepara para judicializar o atraso nos pagamentos. “Na prática, para eles, é até melhor judicializados, e o judiciário mandar eles pagarem, assim só cumprem ordens. O problema é que o judiciário demora”, explicou em mensagem de texto, a que a Matinal teve acesso. 

“O Instituto tem obrigação de pagar vocês. Mas, ao mesmo tempo, tem obrigação de fazê-lo usando a conta do projeto. E a conta do projeto não tem recursos”, disse Batista, por mensagens de texto.

Fundador do projeto, Batista afirma que Alicerce não recebeu repasse da prefeitura. Foto: captura de tela do grupo de tutores do Alicerce

Batista ainda solicitou que os trabalhadores do programa enviassem à Smed seus relatos de vulnerabilidade frente à falta de pagamento. “Tive uma ideia que pode ajudar. Precisamos de você. Pode junto com sua equipe (sic) preparar uma carta da equipe pedindo por uma rápida solução para o repasse pendente da Prefeitura. Verifique quem aqui aceita colocar sua história, sua dificuldade, sua necessidade”, cita a mensagem. 

Para Ana, a história não passa de um “cala boca” para os funcionários. “Ninguém mais está acreditando no que falam. Vejo como um ‘cala boca’. Eles estão vendo que o pessoal está ficando revoltado e estão procurando um meio de acalmar as pessoas, e também, para tentarem manter o pessoal no projeto”, relata.

Batista, do Instituto Alicerce, incentivou alunos a relatar dificuldades para "sensibilizar" Smed. Foto: captura de tela do grupo de tutores do Alicerce

O Alicerce negou ter incentivado os profissionais a pressionar a prefeitura pelo pagamento. “O que foi informado para os colaboradores é que o Instituto Alicerce tem a expectativa de que o projeto tenha continuidade no ano de 2026, mas isso ainda depende de tratativas com a Prefeitura. Em nenhum momento foi solicitado aos colaboradores que abordassem diretamente a SMED. Negamos veementemente este fato”, afirmou o Instituto em nota enviada à reportagem.

Quanto aos atrasos nos pagamentos, o Alicerce culpa a “inadimplência da Prefeitura”.

O Instituto critica ainda os “excessos arbitrários de glosa nos repasses de 2025, que fazem com que a conta corrente do projeto está sem recursos para pagar os professores e também os demais prestadores de serviço com relação a competência de dezembro de 2025”. “Sem este repasse, estamos impossibilitados de pagar nossos colaboradores, muitos dos quais apresentam vulnerabilidade socio-econômica, potencializando as consequências desta demora da Prefeitura de Porto Alegre”, informou.

Valentina Bressan

Repórter investigativa na Matinal. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já publicou nas revistas Veja Saúde, Viagem & Turismo e Superinteressante. Contato: valentina@matinal.org

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