E devagar e sempre, a excelente série de espionagem Slow Horses chegou à sua sexta temporada, na minha, na sua, na nossa Amazon Prime Video. Ave!
Cá com os nossos botões, como os britânicos são bons quando o assunto é espionagem. Não sei se os meus estimados leitores concordam, mas parece que cada cultura nacional tem os gêneros em que se especializa, e os que não consegue dar conta. Não conheço nenhum filme de ação francês que funcione, não conheço nenhuma comédia russa ou indiana, não conheço nenhum filme de investigação policial brasileiro que me convença. Mas, quando o assunto é espionagem, a Inglaterra dá a impressão de ter inventado o manual e as regras. Eita povo oblíquo e dissimulado, sô.
Pode ter a ver com toda uma nação vocacionada para não demonstrar o que pensa, não expressar o que sente, não apresentar suas forças e fraquezas. Talvez por terem sido uma ilha que mais ou menos dominou o mundo, eles tenham aprendido que, mais do que exército e marinha, o que garante o estabelecimento de um bom império seja o controle das informações, especialmente as menos óbvias ou claras. Começando na era elisabetana e vindo até o presente, os ingleses sempre se esmeraram para ter um serviço de inteligência capaz de saber antes, mais e melhor.
Na literatura, reina o escritor John Le Carré, que foi mesmo agente do MI6 – a parte internacional do Serviço Secreto de Sua Majestade, a mesma onde trabalha Bond, James Bond, o nosso estimado double 07. Se vocês, por qualquer motivo ou em qualquer momento ficarem trancados em uma ilha deserta, tenham com vocês uma seleção de livros dele, e o meu favorito – e um dos melhores livros já escritos sobre qualquer gênero – se chama Um Espião Perfeito. Experimentem.
Slow Horses não é sobre o MI6, mas sim sobre o MI5, que se interessa pelo que ocorre dentro e não fora do Reino Unido. Para quem ainda não viu as temporadas anteriores, Slough House é o grupo disfuncional de agentes colocados em uma geladeira operacional por conta de algum erro ou crime cometido, comandados por um dos mais bem informados e amarfanhados chefes de inteligência que o mundo conheceu, o espião Jackson Lamb – interpretado, e brilhantemente, por Gary Oldman.
O departamento comandado por Lamb é ridicularizado pelas áreas normais do MI5, mas, claro, de uma maneira ou outra, o profundo conhecimento de Lamb sobre o que acontece, e o que não deveria acontecer, termina por trazer a unidade Slough House – de um jeito ou de outro – para o centro do que ocorre em alguma investigação ou crise de maior ou menor porte.
Os membros da Slough House são parte do charme da série, uma das melhores combinações de falta de competência jamais vista na televisão britânica. No entanto, com todos os seus problemas, eles desenvolvem lealdades para com Lamb e com a unidade Slough House, e isso, de alguma maneira, os faz superar os limites impostos por instalações precárias, pessoal complicado e orçamento inexistente. O princípio é o mesmo que vemos em séries como a sensacional The Wire: junte os sujeitos mais errados, dê a eles um motivo para lutar e um chefe inspirador, e surpresas podem acontecer.
E elas acontecem.
As séries de espionagem funcionam porque a gente sabe – mesmo que não saiba direito como – que a espionagem existe. Ela é meio como os extraterrestres. A gente não vê, mas ela tá lá. Ok, os extraterrestres não estão lá, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.
Países se espionam de forma organizada e contínua – tá, talvez o Brasil não. Empresas se espionam, e se pode dizer que, de um jeito ou outro, quase todo mundo espiona algo ou alguém.
Slow Horses é sobre isso, e mais outras coisas, tais como a estranha maneira britânica de ser.
Parem o que estão fazendo e vejam. Esta é a dica e, portanto, vejam.