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"O Polígamo" é isso mesmo que você leu

Série da África do Sul está disponível no Netflix

"O Polígamo" é isso mesmo que você leu
Netflix/Divulgação

O maravilhoso mundo do streaming criou uma realidade  diferente do que havia nas salas de cinema, lembram delas? As salas de cinema tinham as suas categorias. No Brasil, a gente via cinema americano, cinema europeu, alguma coisa brasileira e raramente se via cinema de outros países, línguas e culturas, fora dos festivais internacionais de cinema, que serviam pra isso mesmo. Lembro de, no Festival de Berlim, ver filmes húngaros, coreanos, marroquinos e outros que eu nunca teria onde ver em uma sala brasileira daqueles tempos. Assim era.

O streaming veio pra acabar com esse negócio. Uma série é feita em algum lugar, em alguma língua. Ela também é legendada em todas as línguas conhecidas, dublada em algumas delas e, assim, ao entrar na Netflix, ela vira algo mundial e local, que você vê se quiser, quando quiser, sem obstáculos impostos por um sistema de distribuição colonizado como o dos tempos do cinema.

Falem mal do streaming!

E digo tudo isso porque o sucesso na Netflix desta semana é a série O Polígamo, vinda da África do Sul – mas não a África do Sul do ex-apartheid e privilégio branco. Esta é a outra África do Sul, que surge com Mandela e se espalha pros dias de hoje. Nessa série, os personagens são sul-africanos pretos, ricos, em diferentes tons de pele escura e falando zulu. Já gostei.

Um dos enganos brasileiros é a gente achar que é africano. Nós temos uma enorme presença africana na nossa cultura e DNA, mas somos brasileiros e americanos. Nós temos fortes elementos na língua, na comida, na música, nas religiões de origem africana (que parece que só sobreviveram nas Américas), na beleza física brasileira. Mas, olhando para os muitos imigrantes africanos que eu via ao redor em São Paulo, ficava claro que eles eram muito, mas muito diferentes da gente, e em muitos traços.

Um deles é o estilo. Eita povo fashion. Outro é a moral bem mais puritana do que a nossa (contra alguns dos estereótipos que talvez tenhamos). Me surpreendeu saber que os africanos ao norte do Saara eram muçulmanos e ao sul, evangélicos. Isso era um nó para mim, que esperava mais dos nossos irmãos do lado de lá do Atlântico.

E uma das coisas que descobrimos nos depoimentos dos africanos atualmente no Brasil é que lá existe poligamia, aquela na qual um homem pode ter várias esposas e não – curiosamente – o contrário. Isso deve ter influenciado outras culturas, como os mórmons, por exemplo. Mas, digresso.

O Polígamo tem a ver com isso e com um protagonista, o tal Polígamo, que pratica a nobre arte de bagunçar a vida dele mesmo e de várias mulheres que, por algum motivo, topam o jogo.

A série não é exatamente condenativa de coisa alguma. Ela não foi feita para públicos brancos, colonizadores ou quem quer que seja. Ela foi feita por africanos e para africanos, mais especificamente, sul-africanos, que misturam línguas como misturam quase todo o resto. Zulu, xhosa com pitadas de inglês – a coisa é uma festa.

Nosso protagonista não chega a se dar muito bem na sua vida poligâmica e, sem spoilers, pode-se dizer que a série não dá lições de moral porque está ocupada desenvolvendo os seus plots e plot twists que, creiam, são muitos.

O mais legal de se ver séries sobre culturas que desconhecemos é exatamente isso: não sabemos muito bem o que estamos vendo, não entendemos se estamos entendendo e, assim mesmo, vamos em frente, em uma viagem por espaços sociais e emocionais que demonstram o quanto o mundo pode ser diferente a partir de dramas essencialmente humanos. A linguagem lembra as telenovelas, esse primor da cultura latina, que chegou lá e eles souberam aproveitar.

Eu realmente acho que o Brasil pode e deve ser a ponte entre as Américas e as Áfricas. Ninguém recebeu tantos africanos quanto o Brasil – cinco milhões – e, se os métodos e motivos foram os piores imagináveis, a consequência somos nós, o nosso bravo e belo povo brasileiro. Sem eles, não haveria nós, pelo menos em uma versão que valha a pena.

Por tudo isso, vejam.

Fica a dica.

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