Guerra, que estreou no dia 1º de outubro na nossa HBO Max, já se tornou uma das séries mais vistas da plataforma – e isso com um episódio apenas, e os outros sendo lançados semanalmente, às quintas-feiras.
Basicamente, ela é uma história da pior das guerras possíveis – deixando lá atrás batalhas como Stalingrado, Kursk, a invasão da Normandia e outros conflitos que envolvem nada mais do que blindados, infantaria e outras demonstrações de apego ao combate armado como forma de resolver diferenças neste mundo, vasto mundo.
Guerra fala de coisa muito, mas muito pior, sendo uma série sobre o drama que se estabelece quando casais decidem que vão passar a ser ex-casais, mas não sem antes resolverem questões menores como a divisão do patrimônio ou a guarda dos filhos, e quem fica com a cristaleira que era da vovó e, eventualmente, o cachorro.
O meu pai era juiz, e ele temia a vara da família mais do que tudo sobre a terra, e com razão. O que a gente via – e, especialmente nas cidades menores, os casos iam até o juiz, e não o contrário – na nossa casa eram mulheres, homens, pais, mães e filhos dispostos a tudo para deixar claro quem era o culpado ou a culpada das desgraças que se abatiam sobre eles. E a gente ali, minha mãe, meus irmãos e eu, assistindo.
Talvez por isso Guerra não me choque ou surpreenda tanto. Na série, a guerra envolve gente rica, famosa e acostumada a deixar que os advogados resolvam. Na vida real, as coisas podem ser mais áridas, menos bem decoradas e com falas menos elegantes do que o que se vê ali na tela. Guerra tem o bom gosto de acontecer na Londres posh, a caríssima e sofisticadíssima cidade dos escolhidos, da classe privilegiada e suas paredes de mogno, e não desaponta.
Basicamente, temos um magnata da tecnologia, Morgan Henderson – interpretado pelo ótimo Dominic West, imortal desde que fez uma das melhores séries do início da era do ouro televisivo, The Wire (também HBO) –, e sua dileta esposa, a estrela do cinema Carla Duval, no corpo de Sienna Miller. A guerra começa porque Carla decide dar um basta no que Morgan não consegue parar de fazer – no caso, praticar a nada nobre arte do adultério em série.
Entre eles, há um contrato de separação de bens, que vale quase sempre, mas nem sempre. Pra destrinchar as legalidades que separam Carla de muitos milhões a serem obtidos de Morgan, ela contrata um escritório de advogados novo e ambicioso, Taylor and Byrne, enquanto Morgan prefere a Cathcarts, firma clássica, cara e totalmente desprovida de escrúpulos.
A guerra de verdade, na verdade, é a que se desenrola entre os dois escritórios adversários.
Guerra é novelão da melhor estirpe, como uma Downton Abbey por outros meios. O registro narrativo é levemente exagerado, a fotografia tende ao filtro, os personagens são excessivamente eles mesmos e, quase que uniformemente, maus seres humanos.
Se faz ver, é diversão garantida e um bom escapismo para uma época como a nossa, que pede, e muito, um bom escapismo.
Veja e curta.
Fica a dica.