Antes de qualquer coisa, devemos esclarecer que a expressão árabe Tha'ar, em bom português, quer dizer vendetta – aquela vingança que não acaba enquanto houver viv'alma do outro lado. Ela é o sentimento tribal de que, se um membro de uma tribo é atingido, toda a tribo é atingida, e a paz não virá enquanto não houver dano suficiente para o lado de lá – que também é movido a Tha'ar, e por aí se pode ver onde essa história termina.
Dito isso, vamos contar a todos, sem spoilers, que a quinta temporada de Fauda, diponível no Netflix, é aquela em que a diversão termina e a realidade se impõe, a eles, que criaram produziram as quatro temporadas anteriores, a Israel, aos palestinos, a todos nós, que acompanhamos a série pelo que ela nos mostrava de uma realidade que é talvez mais difícil imaginar do que viver.
Entre Fauda 4 e Fauda 5, houve o 7 de outubro de 2023, o massacre indiscriminado de mais de 1,2 mil pessoas por integrantes do Hamas, vindos de Gaza especialmente para isso. Nas proporções, seriam algo entre 25 mil e 30 mil brasileiros assassinados de forma brutal, cruel, assustadora, em algumas horas. Nós, brasileiros, nem somos tão tribais ou ligados a tradições tão viscerais, mas imagino como nós reagiríamos.
E Fauda não tinha como escapar disso, e não optou por escapar. Optou simplesmente por Tha'ar, como a sociedade israelense – ou a maioria que mantém até aqui Netanyahu e seu governo de extrema-direita fundamentalista no poder.
Se nós, de nossa distância geográfica, cultural e temporal, quisermos ser justos, simplesmente olhamos para o outro lado, oprimido há mais de 50 anos por Israel. A ocupação de Gaza e da Cisjordânia é a origem de tudo isso, e Israel é protagonista dessa história.
Eu, você, ninguém normal vai achar que isso justifica o assassinato indiscriminado de mulheres, crianças, velhos, jovens, civis que tocavam a vida em seus kibutzim. Uma das loucuras desse dia é que a maioria dos massacrados pode ter sido de gente de esquerda, progressista, que votaria em uma solução de dois Estados, palestino e israelense.
Essa solução esteve na pauta. Yitzhak Rabin, o herói de guerra e primeiro-ministro progressista, tentou conduzir a região para uma solução pacífica. Foi assassinado por um militante de extrema-direita israelense, e o fogo se estabeleceu como futura norma.
Para somar esforços rumo à barbárie, Gaza também foi tomada pelas forças extremas e fundamentalistas do Hamas, que nunca mais largou o poder e é abastecido pelo Irã xiita.
Extremistas de ambos os lados, usando da violência como norma, em uma região mantida em um estado de tensão permanente por ela mesma, e pelos interesses das superpotências do passado recente – a China pelo menos não tem nada a ver com isso –, é um caldo de tudo onde só pode reinar a loucura. E é o que acontece.
Fauda 5 poderia ter escolhido um caminho de maior compreensão do todo, mas elege mostrar o sofrimento insuportável de quem teve as suas famílias assassinadas no 7 de Outubro em Israel. Com isso, a violência resta como única narrativa, o outro lado desaparece em seus motivos e sofrimentos e Fauda deixa de ser o que era, para se tornar o que dificilmente se faz ver.
Os episódios 7 e 8 são os mais sofridos e aqueles em que a ficção desaparece, e assistir só é possível como documentário.
Eu vi, e talvez vocês devam ver, se querem compreender bem um lado do que houve. Ele é real, houve, é uma mostra de parte do horror que as pessoas daquela região são forçadas a viver.
O Oriente Médio nem sempre foi assim, e se tornou isso com a entrada do colonialismo em cena. As marcas seguem lá, e ninguém parece ter a capacidade ou a vontade definitiva para fazer a história dar uma ré e optar por um caminho humano. Isso deve acontecer um dia, mas não é o que Fauda 5 veio para mostrar, ou defender.
E isso é uma pena.