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30º Cine/PE teve festa e luto

Festival chega aos 30 anos ao mesmo tempo em que perde seu criador

30º Cine/PE teve festa e luto
A atriz Taís Araújo e a equipe do longa "Doutro Monstro". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Como em um roteiro de filme, o Cine/PE – Festival do Audiovisual levou o público do sorriso à lágrima em uma semana. O evento que começou na segunda-feira (1º/6) comemorando seus 30 anos no Cinema do Teatro do Parque, em Recife, ficou de luto a partir de quinta (4) com a morte de seu fundador Alfredo Bertini e encerra esta edição histórica e emotiva com a festa de premiação neste domingo (7).

Um dos maiores eventos do audiovisual no Brasil, o Cine/PE exibiu na campetição seis longas-metragens nacionais, 10 curtas nacionais e seis curtas pernambucanos, selecionados pela dupla de curadores formada por Diego "Edu" Fernandes e Carissa Vieira. Além das mostras competitivas no Teatro do Parque, o festival também promoveu sessões paralelas no tradicional Cinema São Luiz, no centro histórico da capital pernambucana.

O 30º Cine/PE teve início na última segunda com a exibição para uma plateia que lotou o cinema no bairro da Boa Vista de um documentário comemorativo de três décadas da iniciativa. A produção revisitou momentos marcantes da trajetória do festival, recuperando imagens históricas, depoimentos e registros.

Marcos Jorge, diretor do longa "Doutor Monstro". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Após as homenagens, a equipe de Doutor Monstro apresentou o filme que abriu oficialmente a Mostra Competitiva de Longas-Metragens, cujo elenco inclui a atriz Taís Araújo. “Acho de extrema importância a reflexão que esse filme traz num momento em que o feminicídio cresce de forma tão preocupante no nosso país. A educação é um dos vetores mais importantes para que a gente consiga vencer essa doença social. É o momento de nós, homens, nos implicarmos nesse assunto”, afirmou o ator Marat Descartes, protagonista do filme de tribunal dirigido por Marcos Jorge e inspirado no caso real de um médico julgado por matar uma paciente.

O longa em competição na terça foi o simpático Buenosaires, documentário de Tuca Padilha sobre os moradores de um município da Zona da Mata de Pernambuco que tem o mesmo nome da capital da Argentina. Já o terceiro título desse certame foi o drama distópico Resta Um, estreia na direção de longa de Fernando Ceylão protagonizada por Caco Ciocler e com Maria Ribeiro no elenco.

O ator Caco Ciocler, protagonista do longa "Resta Um". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Ecoando séries como Além da Imaginação e Black Mirror e os filmes da franquia Jogos Vorazes, Resta Um acompanha um homem que precisa vencer debates online promovidos pelo governo para sobreviver, em uma trama de suspense crescente com explícitas alusões ao avanço do conservadorismo e da extrema direita no país.

Na quinta, além das exibições de obras em competição como o longa Mapas, drama sensorial rodado no Distrito Federal e assinado por Rafael Lobo, o Cine/PE homenageou dois filmes que participaram da primeira edição do festival em 1997 e que marcaram também a chamada retomada do cinema brasileiro: Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira – considerado o marco zero do novo cinema pernambucano –, O Cangaceiro, de Anibal Massaini Neto, refilmagem do título homônimo dirigido em 1953 por Lima Barreto.

O adeus a Alfredo Bertini

Sandra Bertini, criadora e diretora do Cine/PE, entre os filhos Patrícia e Vitor. Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

A programação festiva, porém, foi abalada no meio pela notícia da morte naquela noite de Alfredo Bertini na Paraíba, onde realizava tratamento de saúde. Criador ao lado da esposa Sandra Bertini do Cine/PE, o economista recifense faleceu em decorrência de complicações relacionadas a um transplante de fígado.

Ex-secretário nacional do Audiovisual, figura respeitada e muito querida no meio do cinema brasileiro, Bertini batalhou incansavelmente ao lado da companheira pela continuidade e crescimento do Cine/PE em particular e pelo fortalecimento do circuito de festivais no país em geral. Entre os destaques do cinema brasileiro que prestigiaram o evento pernambucano em sua trajetória estão nomes como Walter Salles, Fernando Meirelles, Beto Brant, Laís Bodansky, Guel Arraes, Fernanda Montenegro, Antonio Pitanga, Rodrigo Santoro, Wagner Moura, Laura Cardoso, Eva Wilma e Tony Ramos – e até o Rei Pelé, que chamou o festival de "Maracanã do cinema" por conta das sessões com até 3 mil espetadores antes realizadas no Teatro Guararapes.

Alfredo e Sandra Bertini. Foto: Divulgação

Documentário sobre meninas do sertão do Piauí encanta

Na sexta-feira, além de uma homenagem especial a Bertini que incluiu a exibição de dezenas de depoimentos curtos de personalidades do cinema nacional, o Teatro do Parque projetou o encantador longa A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Campai.

Roger Lerina, Simone Zuccolotto e Nínive Caldas apresentando a homenagem a Alfredo Bertini. Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Recebido com entusiasmo no Festival de Berlim, onde estreou, o documentário registra a vida, as brincadeiras e as subjetividades de um grupo de meninas em uma pequena e pobre cidade do sertão do Piauí. Calorosamente aplaudido pelo público, A Fabulosa Máquina do Tempo desponta como um dos favoritos ao Troféu Calunga, premiação do festival recifense.

A produtora Mariana Genescá e a diretora Eliza Capai, de "A Fabulosa Máquina do Tempo". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

A competição de longas se encerrou no sábado, depois da homenagem à atriz Cláudia Abreu, com a projeção de Onde Estamos Seguros, drama de terror rodado no interior paulista e dirigido por Thais Scabio e Gilberto Caetano, que acrescenta ao filme de gênero a denúncia do preconceito racial, da violência policial e do patriarcalismo.

A atriz Cláudia Abreu. Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Curta gaúcho O Véu é um dos destaques da competição

Dois títulos destacaram-se entre os curtas nacionais em competição. Escrito e dirigido por Gabriel Motta, o gaúcho O Véu constrói com talento narrativo uma trama de terror sobrenatural sobre um culto religioso com falsos rituais de possessão, que toma proporções macabras quando a filha do pastor é tomada por uma entidade real.

O roteirista Jonts Ferreira, a diretora de fotografia Livia Pasqual e o diretor e roteirista Gabriel Motta, do curta gaúcho "O Véu". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Já o divertido e inteligente arrebatou a plateia com Os Arcos Dourados de Olinda, documentário de Douglas Henrique que relembra o clima da cidade pernambucana no começo dos anos 2000. Com uma narração debochada e crítica que remete ao clássico curta Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, a produção compara a rejeição dos olindenses à instalação de uma unidade da rede gringa de lanchonetes McDonald’s à disputa pela prefeitura de duas candidatas, uma conservadora e outra comunista.

Equipe do curta pernambucano "Os Arcos Dourados de Olinda". Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação

Os vencedores do 30º Cine/PE, festival marcado por fortes emoções contrastantes, serão conhecidos neste domingo depois da homenagem à Gullane Entretenimento, produtora dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, que também está completando 30 anos e produziu até hoje cerca de 60 filmes – incluindo títulos fundamentais do cinema brasileiro recente como Carandiru, Bicho de Sete Cabeças, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Que Horas Ela Volta? e Como Nossos Pais, entre outros. A noite terá ainda a exibição em pré-estreia mundial e fora da competição de O Cobrador de Fraque, coprodução entre Brasil e Portugal dirigida por Tomás Portella e assinada pela Gullane.

"O Cobrador de Fraque". Foto: Reprodução
Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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