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CineBancários exibe Mostra Cine Argentino Contemporâneo

O ciclo temático gratuito comemora os 18 anos da sala de cinema de rua da Capital

CineBancários exibe Mostra Cine Argentino Contemporâneo
"Nossa Terra". Foto: CineBancários/Divulgação

O CineBancários celebra seu aniversário de 15 a 21 de outubro com uma excelente mostra dedicada ao cinema contemporâneo argentino. A seleção inclui a exibição de Nossa Terra (2025), o mais recente filme da cineasta Lucrecia Martel, e sessões especiais com a presença da diretora argentina Eloísa Solaas.

O ciclo temático comemora os 18 anos de existência de uma das salas de cinema de rua mais queridas da capital gaúcha. Os ingressos serão distribuídos gratuitamente 30 minutos antes de cada sessão. 

Com oito longas-metragens inéditos em Porto Alegre, a Mostra Cine Argentino Contemporâneo tem curadoria do programador e crítico de cinema Leonardo Bomfim. O recorte cinematográfico apresenta um retrato diverso do país sul-americano a partir de narrativas que abordam questões como a reparação histórica de populações indígenas e outros grupos marginalizados, a instabilidade econômica, a memória da violência decorrente do golpe de estado de 1976 e as possibilidades de criação artística em contextos sociais adversos.

A diretora argentina Eloísa Solaas. Foto: CineBancários/Divulgação

A admirável capacidade de fabulação, uma das marcas históricas do cinema argentino, faz-se presente na mostra em tramas que buscam a inspiração de universos instigantes, como os do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, do escritor italiano Cesare Pavese, da poetisa grega Safo e da comunidade indígena de Chuschagasta.

Ao longo de seis dias, o CineBancários exibirá obras de cineastas de reconhecido destaque internacional, com passagens por festivais internacionais prestigiados como Veneza, Berlim e Mar del Plata. Entre os nomes fundamentais do chamado Nuevo Cine Argentino dos anos 2000 estão Lucrecia Martel, Albertina Carri, Alejo Moguillansky e Matías Piñeiro – ao lado de realizadores da geração atual como Lucía Seles, Lautaro Candela, María Aparicio e Eloísa Solaas.

"As Faculdades". Foto: CineBancários/Divulgação

Sessões especiais

Na abertura nesta quinta-feira (15/10), às 20h, será apresentado Nossa Terra, documentário exibido fora de competição no Festival de Veneza e premiado neste ano no Festival Internacional de Cinema da Fronteira, em Bagé. A mais recente produção dirigida por Lucrecia Martel investiga o assassinato do líder indígena argentino Javier Chocobar e a luta da comunidade Chuschagasta pela preservação de seus territórios ancestrais. Haverá uma recepção antes da sessão, às 19h. 

No sábado (17/10), às 18h30min, será realizada uma sessão especial em parceria com o Cineclube Academia das Musas, coletivo dedicado à pesquisa de filmes dirigidos por mulheres. Será exibida então a nova cópia digital de um marco recente do cinema argentino: Os Loiros (2003), de Albertina Carri, um dos filmes fundamentais no diálogo entre a invenção estética e a busca pela memória dos desaparecidos políticos durante o período ditatorial. Após a sessão, ocorrerá um debate com a diretora e pesquisadora porto-alegrense Nica Maleoa e a diretora e professora argentina Eloísa Solaas.

Na terça-feira (20/10), às 19h, será apresentando o longa-metragem documental As Faculdades (2020), de Eloísa Solaas, seguido do debate Cine argentino em tempos de Milei, com a participação de Solaas e de Jessica Luz, da Vulcana, produtora de Porto Alegre que nos últimos anos tem estado à frente de diversos trabalhos de correalização de filmes argentinos exibidos em festivais internacionais.

"As Coisas Indefinidas". Foto: CineBancários/Divulgação

Sobre os filmes:

AS COISAS INDEFINIDAS
Las cosas indefinidas

Argentina/2023/85min.

Direção: María Aparicio

Sinopse: Eva é montadora na cidade de Córdoba, na região central da Argentina. Ao trabalhar com a assistente Rami numa longa-metragem sobre pessoas cegas, parece ter perdido o entusiasmo pelo cinema. Soma-se a isto a morte recente do seu amigo Juan, um realizador de cinema cujos filmes montou. Uma meditação ficcional sobre a natureza da arte, a digitalização dos nossos arquivos, a preservação das nossas memórias e da capacidade humana de encontrar força para continuar. Exibido na competição internacional do FIDMarseille.

AS FACULDADES
Las Facultades

Argentina/2020/78min.
Direção: Eloísa Solaas

Sinopse: Estudantes de diferentes cursos se preparam para enfrentar os exames finais. Botânica, anatomia, sociologia, filosofia medieval, direito penal, morfologia, física teórica e piano. Cada um utiliza seus recursos para lidar com a inquietante situação de exposição oral, a prática avaliativa mais comum nas universidades nacionais da Argentina. Desde um estudante de cinema incapaz de se lembrar de muita coisa de O Encouraçado Potemkin até um ex-presidiário reconstruindo sua vida, os alunos de diferentes cursos preparam seus exames finais. Entre o drama e o absurdo de uma dúzia de provas, surgem relações inesperadas. Exibido na competição internacional da Viennale.

Cartaz do filme "As Faculdades". Foto: CineBancários/Divulgação

CAMBIO CAMBIO
Cambio Cambio

Argentina/2022/89min.
Direção: Lautaro Candela

Sinopse: Pablo é um jovem do interior que trabalha na Rua Florida, em Buenos Aires, em plena pós-pandemia. Para sobreviver à crise econômica, começa a trabalhar clandestinamente como “arbolito” (cambista de dólares na rua) e entra no mundo das financeiras informais ao lado de sua companheira, Flor. Exibido na competição internacional de Mar del Plata.

NOSSA TERRA
Nuestra Tierra

Argentina/México/EUA/França/Holanda/Dinamarca/2025/122min.
Direção: Lucrecia Martel

Sinopse: Em 2009, um homem e dois cúmplices tentam expulsar membros da comunidade indígena de Chuschagasta, no norte da Argentina. Alegando serem proprietários das terras e armados, eles matam o líder da comunidade, Javier Chocobar. O assassinato é registrado em vídeo. São necessários nove anos de protestos até que, em 2018, finalmente sejam iniciados os procedimentos judiciais. Durante todo esse período, os assassinos permanecem em liberdade. O filme combina as vozes e fotografias da comunidade com imagens do processo judicial para explorar a longa história de colonialismo e expropriação de terras que levou a esse crime. Exibido hors-concours (fora de competição) no Festival de Veneza.

Cartaz do filme "Nossa Terra". Foto: CineBancários/Divulgação

OS LOIROS
Los Rubios

Argentina/2003/89min.
Direção: Albertina Carri

Sinopse: Quem foram os Carri? Como desapareceram? Loiros, morenos, altos, pais, revolucionários, filhos, ativistas, heróis ou uma ficção daqueles que os recordam? A realizadora utiliza a câmara para revelar feitos baseados na vida emocional dos seus pais, desaparecidos e assassinados, vítimas da última e brutal ditadura argentina. Partindo dos enganos da memória, Carri consegue testemunhos de antigos companheiros, velhas fotografias, uma atriz que faz o papel da realizadora, fantásticos bonecos playmobil e as suas próprias fantasias. Dessa forma, ela e a sua equipe embarcam numa busca através da geografia e história de Buenos Aires, procurando um profundo entendimento sobre o acontecido.

Cartaz do filme "Os Ruivos". Foto: CineBancários/Divulgação

SMOG EN TU CORAZÓN
Smog en Tu Corazón

Argentina/2022/112min.
Direção: Lucía Seles

Sinopse: Cinco pessoas trabalham em um complexo de tênis: Manuel, o proprietário; a Tenista, uma professora de tênis; Sergio, recém-chegado de San Juan; Luján, a gerente tímida; e Aristegui, um contador apático. As tensões surgem quando eles planejam uma peregrinação à catedral de Luján, sem convidar Luján. O nonsense da própria vida brinca com os sentimentos do proprietário e dos funcionários do complexo esportivo, em um melodrama anárquico que foge a todas as regras, inclusive ortográficas. Exibido na Semana da Crítica (Woche der Kritik) em Berlim.

PIN DE FARTIE
Pin de Fartie

Argentina/2025/106min.
Direção: Alejo Moguillansky

Sinopse: Uma menina e um homem cego contemplam um lago que torna imprecisos os limites do espaço. Dois atores se aproximam como amantes para ensaiar uma antiga peça em um país do sul. Dois velhos vivem dentro de uma lixeira diante do Congresso desse mesmo país do sul. Um filho em uma despedida permanente de sua mãe idosa, uma pianista cega condenada a tocar a Sonata ao Luar, de Beethoven, porque é a única peça que ainda consegue lembrar de cor. Dois cineastas, talvez responsáveis por tudo isso, filmando trens, luas e dedicando seu tempo a uma atividade que ninguém sabe se ainda existe: o cinema. Uma das mais recentes obras do cultuado coletivo El Pampero Cine, Pin de Fartie utiliza a peça Fim de Partida, de Samuel Beckett, como fio condutor para entrecruzar diferentes narrativas e dinâmicas de relacionamentos. Exibido na seção Orizzonti do Festival de Veneza.

VOCÊ ME QUEIMA
Tu me abrasas

Argentina/Espanha/2024/64min.
Direção: Matías Piñeiro

Sinopse: A antiga poetisa grega Safo e a ninfa Britomartis encontram-se à beira-mar e conversam sobre o amor e a morte. Diz-se que Safo se atirou ao oceano por causa de uma desilusão amorosa. Britomartis, por sua vez, teria caído de um penhasco e mergulhado na água enquanto fugia de um homem. Juntas, as duas discutem as histórias e imagens que surgiram em torno delas, tentando compreender, ao menos por um instante, a natureza agridoce do desejo. Uma adaptação de “Espuma do Mar”, capítulo de Dialoghi con Leucò, de Cesare Pavese, publicado em 1947. O filme adapta não apenas o texto, mas também suas notas de rodapé e lacunas. Por exemplo, o fato de que, em 1950, um desesperado Pavese cometeu suicídio em um quarto de hotel, tendo ao seu lado este livro. Ou que os poemas de Safo sobreviveram apenas em fragmentos. Ou ainda que a espuma do mar está historicamente e cientificamente associada à fertilidade e às bactérias, isto é, à própria vida. “Tudo morre no mar e volta à vida”, diz Britomartis. Você Me Queima propõe novas leituras e traduções que vão além dos mitos de Pavese e Safo. Exibido na seção Encounters do Festival de Berlim.

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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