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"O Estrangeiro" ganha versão no cinema à altura de Camus

Filme de François Ozon leva às telas o romance do escritor franco-argelino

"O Estrangeiro" ganha versão no cinema à altura de Camus
California Filmes/Divulgação

Exibido no Festival de Veneza, O Estrangeiro (2025) leva ao cinema o clássico da literatura escrito por Albert Camus (1913 ⎯ 1960). Considerado por muitos como infilmável, o romance do filósofo e escritor franco-argelino ganhou na versão assinada por François Ozon uma versão à altura da desconcertante apatia diante da vida do protagonista da obra.

Em O Estrangeiro, Meursault (Benjamin Voisin) é um jovem francês que leva na Argel de fins dos anos 1930 uma existência discreta e apagada, trabalhando em um escritório e morando em um apartamento simples. Um telegrama comunicando a morte da mãe em um asilo no interior obriga-o a viajar ⎯ mas a perda materna não parece comover minimamente o rapaz.

Na volta, Meursault reencontra Marie (Rebecca Marder) e ambos retomam o antigo namoro. A despeito do entusiasmo da garota, o personagem principal mantém-se apático, indiferente a tudo e todos.

California Filmes/Divulgação

Convidado pelo vizinho de porta, o cafetão Raymond (Pierre Lottin), ele vai com a companheira passar um dia em uma praia ensolarada, onde um encontro trágico terá como desfecho o assassinato de um jovem árabe, morto a tiros por Meursault.

Preso e levado ao tribunal, o francês recusa-se a defender-se ou mesmo tentar explicar sua atitude fatal e aparentemente gratuita. No julgamento, não apenas o crime e suas circunstâncias serão analisados, mas também a personalidade e a postura do réu diante do mundo.

Filmado em contrastante preto-e-branco, que reforça tanto a luminosidade do sol que perturba Meursault quanto a escuridão em que mergulha nos momentos de solidão, O Estrangeiro acrescenta abordagens contemporâneas ao original existencialista ⎯ sem, no entanto, diluir ou desvirtuar o ensaio sobre o desencanto com a condição humana do texto de Camus. Na versão de Ozon, o papel das mulheres na história ganha mais espaço, além de assumir uma postura mais crítica sobre o colonialismo francês na Argélia.

California Filmes/Divulgação

Um dos realizadores mais conhecidos do cinema francês nas últimas décadas, o diretor e roteirista François Ozon exibe uma prolífica e premiada filmografia, que inclui títulos como Sob a Areia (2000), 8 Mulheres (2002), Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003), Potiche – Esposa Troféu (2010) e Frantz (2016), entre muitos outros. O cineasta já trabalhou com alguns dos principais nomes do cinema europeu, como Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Charlotte Rampling, Fanny Ardant e Gérard Depardieu.

Aliás, além da versatilidade temática, a qualidade das atuações é uma das características dos filmes dirigidos por Ozon. Pierre Lottin, por exemplo, levou o prêmio César de melhor ator coadjuvante pelo papel do proxeneta sem escrúpulos de O Estrangeiro.

California Filmes/Divulgação

Benjamin Voisin – que já tinha trabalhado com o diretor em Verão de 85 (2020) e brilhou na recente versão cinematográfica de outro romance francês antológico, Ilusões Perdidas (2021), de Balzac – empresta a Meursault a medida exata de frieza, náusea e perplexidade com a própria desconexão em relação às emoções e padrões morais. Recorrentemente acordando ou dormitando em cena, o anti-herói parece estar em um sonho ou pesadelo cuja trama protagoniza a contragosto e sem forças para interferir no próprio destino.

California Filmes/Divulgação

O Estrangeiro: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de O Estrangeiro:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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