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Peleia Braba questiona recursos destinados ao tradicionalismo e defende mais diversidade nas políticas culturais do RS

Coletivo aponta assimetria em favor de CTGs em editais; Secretaria de Estado da Cultura afirma que não há tratamento diferenciado

Peleia Braba questiona recursos destinados ao tradicionalismo e defende mais diversidade nas políticas culturais do RS
Movimento Peleia Braba. Foto: Andressa Ramos

Formado por mais de 150 mulheres do Rio Grande do Sul e de outros estados, o Movimento Peleia Braba questiona o espaço ocupado pelo tradicionalismo na distribuição de recursos públicos destinados à cultura e defende uma destinação mais equânime em relação à diversidade das populações e manifestações culturais do RS. O coletivo reúne profissionais da educação, cultura e saúde, com foco em acolhimento, articulação política e análise crítica de editais.

Um dos eixos de atuação do movimento critica a  “assimetria e falta de equanimidade” no acesso a recursos destinados à cultura. 

“A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) lançou prêmios com verba própria do estado que foram criados e direcionados exclusivamente para os Centros de Tradicionalismo Gaúcho (CTGs). Ao mesmo tempo que contaram com esses prêmios específicos e fechados a qualquer outro grupo, os CTGs também puderam se inscrever e concorrer livremente em todos os editais abertos das demais áreas gerais, bem como em editais como Cultura Popular e Culturas Vivas – Pontos de Cultura”, afirma Cris Cubas, produtora cultural e uma das idealizadoras do Peleia Braba.

“Não se trata de negar recursos aos CTGs, onde também existem mulheres, pessoas pretas e demandas reais, mas de questionar escolhas de governo que reforçam financeiramente um segmento já historicamente favorecido, material e simbolicamente, em vez de priorizar territórios e populações que continuam desassistidos”, completa a integrante do movimento.

Em nota enviada à Matinal, a Sedac afirma que considera legítimo o debate sobre os critérios de distribuição dos recursos públicos, mas que a existência de editais específicos para o tradicionalismo gaúcho não caracteriza um privilégio. “O tradicionalismo é uma manifestação cultural de reconhecida relevância no Estado e, como outras expressões culturais, pode ser contemplado por políticas específicas de preservação, valorização e fomento, da mesma forma como ocorre com o segmento do Carnaval e do Audiovisual, que também receberam editais específicos de valorização e fomento”, declara a pasta.

“A participação de agentes tradicionalistas nos demais editais também não configura tratamento diferenciado: esses instrumentos são abertos àqueles que atendam aos seus critérios e regras de seleção. A política cultural do Estado não se restringe a um segmento”, ressalta a Sedac – leia a íntegra da nota ao final da matéria.

As mobilizações do Peleia Braba nasceram da rede digital Mulheres Divulgação RS, que une agentes da cultura da Região Metropolitana e interior do estado, contando também com participantes de Bahia, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. “A constatação de que os espaços de decisão, o acesso aos recursos e a própria narrativa histórica do estado continuam marcados por profundas assimetrias de gênero e raça foi o estopim para unirmos forças. E o convite segue permanentemente aberto para que novas mulheres venham somar a essa peleia”, diz Cubas.

Segundo ela, o movimento surgiu como resposta coletiva às “estruturas patriarcais, machistas, misóginas e transfóbicas no campo cultural gaúcho”, enfrentando também apagamentos históricos vividos por comunidades tradicionais. “Muito antes da chegada de qualquer homem branco, povos originários como os Mbyá-Guarani, Kaingang e Xokleng já habitavam esta terra”, ressalta a produtora cultural.

Além de atuar nas redes sociais, o coletivo realiza ações presenciais. No dia 2 de agosto, promoveu conversas e apresentações artísticas em Porto Alegre, Rio Grande e São Paulo. No dia 15 do mesmo mês, uma roda de samba de artistas mulheres no Bar Avesso embalou a leitura do manifesto do grupo. Para 2027, o Peleia Braba vislumbra transformar a articulação em mostra cultural ou festival.


Leia a entrevista com Cris Cubas, integrante do Movimento Peleia Braba.

Matinal – O que motivou a criação do movimento?

Cris Cubas – O Movimento Peleia Braba nasceu da urgência de tensionar as estruturas do setor cultural no Rio Grande do Sul e criar uma rede sólida de acolhimento, articulação e visibilidade para as mulheres produtoras, artistas e trabalhadoras da cultura. A constatação de que os espaços de decisão, o acesso aos recursos e a própria narrativa histórica do estado continuam marcados por profundas assimetrias de gênero e raça foi o estopim para unirmos forças. Queríamos apontar as lacunas e construir uma frente ativa de luta, denúncia e proposição de políticas públicas mais equitativas. O Peleia Braba surge, assim, como resposta coletiva ao esgotamento das estruturas patriarcais, machistas, misóginas e transfóbicas no campo cultural gaúcho.

Matinal – O manifesto do movimento questiona uma visão hegemônica da identidade gaúcha. O que esse modelo representa e quais vozes e experiências ficam de fora dessa narrativa?

Cubas  – O manifesto questiona abertamente a figura do homem branco, rural, estancieiro e patrão como se fosse a identidade unívoca e universal do gaúcho, uma construção ideológica consolidada a partir do século 19 que apagou as verdadeiras bases do nosso território. Essa narrativa hegemônica invisibilizou completamente o fato de que o Rio Grande do Sul foi edificado, fundamentalmente, por mãos negras e indígenas – e de mulheres.

Muito antes da chegada de qualquer homem branco, povos originários como os Mbyá-Guarani, Kaingang e Xokleng já habitavam esta terra. A própria erva-mate, símbolo central da cultura gaúcha, é um cultivo e legado ancestral desses povos, tendo para a cultura Mbyá-Guarani um valor de elemento sagrado, instrumento de voz e de fala.

Da mesma forma, ocultou-se a imensa contribuição da população negra sequestrada como mão de obra escravizada, em especial para os portos e charqueadas da região de Pelotas e Rio Grande. O RS é o estado com maior presença de terreiros de matriz africana depois da Bahia, abrigando uma cosmovisão e uma religião própria e genuinamente gaúcha, que é o Batuque do RS. O manifesto, portanto, confronta esse modelo excludente para reverter o apagamento histórico e reafirmar que o Rio Grande do Sul é profundamente diverso.

Esse olhar amplo se estende à resiliência dos povos quilombolas, exemplificada por territórios fantásticos como o Quilombo de Casca, em Mostardas, e o Quilombo do Morro Alto, em Maquiné, com suas organizações comunitárias exemplares de cuidado e respeito com a natureza. Na lida camponesa, é fundamental reconhecer o papel do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na promoção da agricultura familiar, da agroecologia e do cultivo de alimentos sem veneno.

Nas periferias urbanas, vemos a potência criativa de comunidades que transformam a escassez em linguagem e resistência, expressa na efervescência do hip hop, no Museu do Hip Hop em Porto Alegre, nas batalhas de rima e nos slams poéticos que redefinem a juventude. Por fim, a cultura fronteiriça hispano-brasileira – como nas cidades de fronteira seca, a exemplo de Rivera, onde uma rua separa dois idiomas – nos ensina sobre o portunhol, a convivência sem fronteiras geográficas ou linguísticas e a fluidez das trocas humanas.

Reconhecer todas essas vozes não é um ato de caridade, mas uma necessidade civilizatória. Precisamos parar, ouvir e aprender com esses saberes para que possamos construir, coletivamente, novos futuros possíveis.

Matinal – Uma das principais reivindicações diz respeito ao acesso aos recursos públicos. Que assimetrias vocês identificam atualmente nos editais e prêmios do governo do estado?

Cubas: Identificamos uma profunda assimetria e falta de equanimidade nas políticas públicas de cultura do governo do estado do Rio Grande do Sul. A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) lançou prêmios com verba própria do estado que foram criados e direcionados exclusivamente para os Centros de Tradicionalismo Gaúcho (CTGs). Ao mesmo tempo que contaram com esses prêmios específicos e fechados a qualquer outro grupo, os CTGs também puderam se inscrever e concorrer livremente em todos os editais abertos das demais áreas gerais, bem como em editais como Cultura Popular e Culturas Vivas – Pontos de Cultura.

Apontamos abertamente essa falta de equanimidade: por que um único segmento tem o privilégio de receber um prêmio exclusivo com verba direta do estado enquanto os outros não podem concorrer? Se o governo decide criar um prêmio por trajetória, por que não faz prêmios específicos com verba direta para salvaguardar os terreiros de matriz africana, as comunidades indígenas, os territórios quilombolas, as lideranças periféricas ou as expressões da fronteira?

Não se trata de negar recursos aos CTGs, onde também existem mulheres, pessoas pretas e demandas reais, mas de questionar escolhas de governo que reforçam financeiramente um segmento já historicamente favorecido, material e simbolicamente, em vez de priorizar territórios e populações que continuam desassistidos. Vale lembrar que o prêmio reconhece a trajetória e a história já realizada de um grupo sem a exigência da estrutura complexa de um projeto, enquanto os editais de fomento exigem propostas futuras com impacto social no ecossistema cultural; ambos são essenciais, mas precisam ser distribuídos com justiça e equidade.

A essa assimetria soma-se o grave problema dos atrasos nos repasses dos recursos públicos. Hoje vivenciamos o maior aporte da história da cultura no país trazido pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do governo federal, mas no RS — que passou por mudanças consecutivas na gestão da Sedac — acumulamos quase nove meses de espera pelos pagamentos, com a promessa do governo de quitar apenas 60% dos editais até o final de setembro.

Em nota enviada à Matinal, a Sedac afirma que não há privilégio na distribuição de recursos a CTGs. Em relação à PNAB, a secretaria diz que “as fases de habilitação, contratação e repasse dos recursos seguem em conformidade com os prazos estabelecidos nos respectivos editais, sem qualquer atraso”.

Além disso, na esfera municipal, enfrentamos os gargalos de execução da PNAB em Porto Alegre, onde os editais e critérios foram duramente questionados pela classe artística devido à falta de transparência na divulgação, nas reuniões e nas oitivas, além do descaso com o uso de ferramentas públicas de tecnologia para dar visibilidade às avaliações. Esse cenário se repete em diversos municípios do interior com verbas federais retidas há quase um ano.

Ser trabalhadora da cultura exige resistir a uma rotina em que o pagamento do nosso trabalho leva de 6 a 12 meses para sair, relegando a nós uma luta diária por sobrevivência e dignidade. Nós trabalhadoras da cultura que movimentamos um dos maiores PIBs do país. 

Matinal –  Que mudanças concretas vocês gostariam de ver nas políticas públicas de cultura?

Cubas – Defendemos um avanço estrutural centrado na ampliação de verbas e no reconhecimento real da diversidade cultural, superando o modelo em que vertentes completamente diferentes são jogadas “num mesmo bolo” para disputar verbas reduzidas. A garantia atual de 40% de cotas e ações afirmativas é uma conquista importante, mas ainda insuficiente. O trabalho da cultura exige ir ao detalhe, aprofundar e visibilizar cada bolha de realidade.

Reivindicamos mudanças concretas em três frentes principais: ampliação substancial do orçamento – com aumento expressivo dos recursos destinados aos programas de Cultura Popular e Cultura Viva, garantindo também prêmios específicos de trajetória por segmentos –, segmentação detalhada por linguagens e territórios e justiça na distribuição e formação de base.

É positivo e necessário que existam editais de inovação, games, redes e novos arranjos, mas identificamos que essas linhas acabam concentrando recursos expressivos em quem já possui ascensão social e acesso às tecnologias. É preciso redirecionar também fomento e ações de formação de base para quem mais precisa e ainda não tem acesso a esses meios.

O objetivo é dar oportunidade para todas as expressões sem privilégios exclusivos: quem quer cultuar a tradição do CTG deve ter seu espaço, assim como todas as outras manifestações populares, comunitárias, diversas e ancestrais do nosso estado.

Matinal – Em relação às mulheres no RS, quais limitações vocês consideram mais urgentes de serem enfrentadas?

Cubas – Enfrentamos no Rio Grande do Sul as mesmas limitações estruturais apontadas pelo movimento feminista global, acrescidas de marcas profundas do conservadorismo local: a violência, a falta de equidade salarial, o teto de vidro na representatividade política e institucional — onde somos minoria em espaços de decisão — e a desvalorização sistemática de áreas como a educação, historicamente compostas por mulheres e vitais para o desenvolvimento civilizatório.

No campo cultural gaúcho, essas limitações adquirem contornos simbólicos muito concretos. Ainda hoje existem grandes festivais de cultura gaúcha no estado em que as mulheres sequer podem participar como concorrentes. Há uma tentativa constante de encarcerar a mulher no mito da “prenda”, termo que significa literalmente “presente”, condicionando a presença feminina ao papel de figura recatada, bem-comportada, subordinada ao “patrão” e restrita à reprodução do lar.

Quando as mulheres rompem esse script, usam o humor, a paródia ou reivindicam protagonismo sobre o próprio corpo e arte, sofrem perseguições, constrangimentos e até processos judiciais – como o caso de duas colegas musicistas.

Em entrevista à Parêntese, a cantora e instrumentista Clarissa Ferreira comenta o processo movido contra ela e a compositora Ana Matielo após a publicação em redes sociais de uma paródia de Céu, Sol, Sul, Terra e Corleia aqui.

O foco do movimento é derrubar essa limitação simbólica e estrutural. A linguagem e o imaginário constroem a realidade. Não aceitamos mais ser reduzidas apenas a cuidadoras domésticas; somos lideranças com capacidade de articulação horizontal que acolhem desde os mais velhos às crianças. Reivindicamos voz, autonomia, equidade de recursos e o direito de sermos agentes ativas no mundo sem precisar pedir licença aos padrões patriarcais.


Confira a íntegra da resposta da Secretaria de Estado da Cultura sobre os questionamentos do Movimento Peleia Braba:

“A Secretaria da Cultura (Sedac) respeita a manifestação e considera legítimo o debate sobre os critérios de distribuição dos recursos públicos. Contudo, é importante destacar que a existência de editais específicos para o tradicionalismo gaúcho não caracteriza privilégio. 

O tradicionalismo é uma manifestação cultural de reconhecida relevância no Estado e, como outras expressões culturais, pode ser contemplado por políticas específicas de preservação, valorização e fomento, da mesma forma como ocorre com o segmento do Carnaval e do Audiovisual, que também receberam editais específicos de valorização e fomento.

A participação de agentes tradicionalistas nos demais editais também não configura tratamento diferenciado: esses instrumentos são abertos àqueles que atendam aos seus critérios e regras de seleção. A política cultural do Estado não se restringe a um segmento. 

A partir do funcionamento do Sistema Estadual de Cultura (SEC), a Sedac segue evoluindo na democratização do acesso, ampliação dos recursos disponibilizados e atendimento de diferentes segmentos culturais e regiões do Estado. É muito importante frisar que o governo do Estado dobrou o limite anual da Lei de Incentivo à Cultura (LIC) e fortaleceu o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) com receitas próprias para o fomento às atividades culturais. 

Com relação aos recursos da PNAB, não procede a informação de que há atrasos ou prazos não cumpridos. Por meio de oito editais, recebemos a inscrição de 3.393 projetos, tendo sido 373 selecionados, com os resultados finais publicados em junho deste ano, conforme cronograma previsto.

As fases de habilitação, contratação e repasse dos recursos seguem em conformidade com os prazos estabelecidos nos respectivos editais, sem qualquer atraso. Até este momento, foram disponibilizados 333 termos para os proponentes que foram habilitados. Na medida que os termos são firmados pelos proponentes, os recursos são repassados, totalizando mais R$ 22 milhões até o presente momento. Portanto, considerando a evolução do processo, devemos concluir os repasses em breve, sempre observando os procedimentos administrativos necessários, a segurança jurídica e os cuidados à correta aplicação dos recursos públicos. Importante também recordar que a meta de execução de 60% do valor até 30 de setembro foi definida pelo Ministério da Cultura (MinC).”

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Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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