Olá! A Matinal abre a semana com uma reportagem que revela um episódio incomum no Exército: dois militares presos dentro de um quartel em Porto Alegre – um por estupro de vulnerável e outro por homicídio – chegaram a ser indicados para receber uma medalha de mérito. A honraria acabou cancelada após questionamentos sobre a regulamentação da condecoração.
Também nesta edição: ontem, 8 de março, mais de 3 mil pessoas participaram de uma manifestação contra o feminicídio no Centro da capital. Na coluna Tudo É Gênero, Marcela Donini questiona se a exposição dos detalhes mais brutais da violência contra mulheres realmente mobiliza a sociedade. Já Juremir Machado da Silva lembra que o machismo no Brasil tem raízes coloniais. Na cultura, o repórter Ricardo Romanoff traz detalhes de uma mostra dedicada às cineastas gaúchas.
A edição traz ainda movimentações no cenário político: o governador Eduardo Leite lançou um manifesto de pré-candidatura à presidência, enquanto a disputa ao Piratini começa a ganhar contornos. E ainda destacamos a participação da antropóloga Cláudia Fonseca na Sabatina Parêntese, em conversa sobre sua trajetória e os desafios de compreender realidades sociais complexas.
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Exército indicou militares presos por estupro de vulnerável e homícidio à medalha de mérito em Porto Alegre
O 3º Batalhão de Polícia do Exército, com sede em Porto Alegre, expediu diplomas da Medalha ao Mérito Brigadeiro Jerônimo Coelho para dois militares presos dentro do quartel. A honraria reconhece aqueles que se destacam por profissionalismo, dedicação e relevantes serviços prestados.
Os dois indicados são um segundo-sargento, preso por estupro de vulnerável, com o agravante de crime doméstico e/ou com uso de autoridade; e o subtenente Jader Luís da Cás, por assassinato de um homem em situação de rua.
À Matinal, o Comando Militar do Sul (CMS) afirmou que após pedido de possíveis nomes para o reconhecimento, os militares foram indicados porque “haviam prestado bons serviços internos no Batalhão”. No entanto, “ao receber assessoramento quanto à regulamentação da concessão das medalhas, o Comandante imediatamente decidiu pela não concessão e os diplomas foram inutilizados”.
Leia a reportagem completa:
“Se cuida, seu machista”: Mulheres marcham contra o feminicídio em Porto Alegre
Mulheres percorreram as ruas do Centro de Porto Alegre neste domingo em protesto contra os altos índices de feminicídio no Rio Grande do Sul e no país. O ato marcou o Dia Internacional da Mulher e integrou uma série de manifestações em vários estados, organizadas por movimentos sociais, centrais sindicais e partidos de esquerda.
Na capital gaúcha, a multidão se reuniu na Praça dos Açorianos (Ponte de Pedra), perto das 10h, embalada pela sonoridade do Movimento de Empoderamento Feminino Baque Mulher e da escola de música para mulheres As Batucas. Sob um sol forte e sensação térmica de 30ºC, faixas e cartazes refletiam a demanda por uma cidade mais segura e a defesa de direitos fundamentais. Palavras de ordem entoadas pelos participantes criticavam o racismo, o machismo e a misoginia. A Brigada Militar estimou que mais de 3 mil pessoas participaram do ato.
Leia mais sobre o ato e veja outras fotos na matéria.
Após duas décadas, governo cria parque nacional no RS; área é a maior fora da Amazônia
Um decreto do governo federal criou o Parque Nacional do Albardão e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, na zona costeira e marítima de Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Publicada em edição extra do Diário Oficial da União na sexta-feira (6), a medida amplia a rede de áreas protegidas do país e fortalece a conservação de ecossistemas marinhos pouco representados no sistema nacional.
O complexo protegido soma cerca de 1,6 milhão de hectares, dos quais cerca de 1 milhão correspondem ao parque nacional, o que o torna o maior parque nacional brasileiro fora da Amazônia.
A área protege uma extensa faixa oceânica que avança mais de 100 quilômetros mar adentro. Segundo pesquisadores, a região é estratégica por concentrar o encontro das correntes do Brasil e das Malvinas, fenômeno que gera alta produtividade biológica e sustenta espécies como baleias, golfinhos e a toninha, um dos cetáceos mais ameaçados do Atlântico Sul. A criação do parque também permitiria restringir atividades de alto impacto e criar um refúgio ecológico capaz de favorecer a recuperação de estoques pesqueiros.
O projeto, porém, enfrenta críticas de setores da pesca e da energia, que temem restrições a áreas historicamente usadas para captura de espécies comerciais e a projetos de energia eólica offshore e de exploração de petróleo na região.
A criação das unidades encerra um processo de quase duas décadas de estudos e debates técnicos.
Leite testa caminho presidencial; disputa ao Piratini ganha contorno
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), lançou na sexta um manifesto de pré-candidatura à presidência no qual defende uma “terceira via” para superar a polarização política e as disputas ideológicas no país. No dia seguinte, durante evento em São Paulo, criticou uma “aparente relação promíscua” no Supremo Tribunal Federal ao comentar o escândalo envolvendo o Banco Master. O desafio de Leite, porém, será grande: pesquisa Datafolha divulgada no sábado indica que ele tem 3% das intenções de voto e 15% de rejeição.
No plano estadual, um painel da Famurs reuniu seis pré-candidatos ao Palácio Piratini e evidenciou divergências entre os postulantes ao cargo. Gabriel Souza (MDB) defendeu a atual gestão, enquanto Luciano Zucco (PL) fez críticas ao governo. Já Edegar Pretto (PT) chegou a ser vaiado por parte do público. Para ele, a semana trouxe ainda outro revés: o PSOL decidiu não integrar uma federação com o PT, o que deve obrigar a reconfiguração das alianças locais.
OUTRAS NOTÍCIAS
A prefeitura instalou um banco vermelho na praça da Alfândega para conscientizar sobre a violência de gênero. Ao todo, estão previstos dez bancos do tipo em diferentes praças da cidade.
As obras nas escadarias do passeio Primavera do Viaduto Otávio Rocha foram concluídas e o trecho está liberado para o público.
Mesmo após a conclusão da revitalização, o Quadrilátero Central ainda tem trechos que demandam ajustes.
O Ministério Público vai investigar o governo do RS pela aplicação de 608 mil multas em 2025 em pedágios sem cancelas.
Juremir lembra que a cultura brasileira machista tem raízes coloniais, mas não deixa de sonhar com um futuro melhor: “Numa terra radiosa vive um povo atado ao seu passado com a promessa de um futuro paradisíaco. Um passado que precisa enterrar para, enfim, produzir a alegria do presente.”
Cláudia Fonseca na Sabatina: “Realidades nunca são simples como imaginamos”
por Parêntese
A primeira edição do ano da Sabatina Parêntese – Conversas sobre o futuro contou com a participação da antropóloga Cláudia Fonseca. O encontro, mediado pelo professor Luís Augusto Fischer na livraria Paralelo 30 no último sábado, percorreu a biografia da pesquisadora, a fim de compreender parte de sua trajetória enquanto acadêmica e pensadora — uma carreira que resultou em uma série de estudos sobre família, infância e circulação de crianças que influenciaram o debate antropológico no Brasil. A conversa também buscou refletir sobre o próprio ofício da antropologia.
Leia o texto completo →
A misoginia é reversível?
E o jornalismo? Recentemente, tenho me perguntado se as notícias sobre violência contra a mulher, que nos últimos meses têm ganhado mais atenção da imprensa, devem ter os detalhes da brutalidade com que os corpos femininos são tratados. É para chocar, justificam. Mas se a simples notícia de uma mulher ou uma criança violentada e/ou morta em contexto de gênero não choca, apelar para a crueldade do crime vai comover o público?
Mais importante: vai mobilizar a sociedade para a mudança?
Importa se foi com uma facada ou com 18? Ou que tal parte do corpo estava de tal jeito quando ela chegou à delegacia? Faz mesmo diferença? Uma certeza eu tenho: dá muito mais audiência.
CULTURA
Mostra “A Leoa Vai à Caça” destaca produção de cineastas gaúchas

A Cinemateca Capitólio realiza a mostra A Leoa Vai à Caça, de 12 a 15 de março, exibindo curtas, médias e longas-metragens de 15 diretoras, em sessões gratuitas. “Quando pesquisamos a história do cinema do Rio Grande do Sul, percebemos que há muitas mulheres desde sempre, escrevendo, dirigindo, produzindo, mas essas trajetórias aparecem de forma dispersa e pouco organizada como memória coletiva. A Leoa Vai à Caça nasce do desejo de construir essa memória e criar um encontro entre gerações”, explica Betânia Furtado, idealizadora da mostra ao lado de Renata de Lélis. Confira a programação na matéria de Ricardo Romanoff.
OSCAR 2026🏆 Nesta seção especial, publicamos e recuperamos resenhas dos filmes que concorrem à estatueta este ano. Acompanhe!
“Frankenstein”: longa celebra e questiona o romantismo
O Prometeu moderno nascido originalmente nas páginas escritas por Mary Shelley ganhou nova versão cinematográfica, dirigida por Guillermo del Toro, que destaca os distintos humores românticos de criador e criatura da célebre novela gótica. Frankenstein (2025) acompanha a paixão do brilhante e egocêntrico cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac) em sua obsessão em vencer a morte, originada pela perda da mãe e por traumas de infância. Financiado pelo cínico empresário Harlander (Christoph Waltz), o pesquisador consegue dar vida a um homem criado a partir da junção de membros de diferentes cadáveres.
No Oscar, o filme disputa as categorias de Melhor Filme, Ator Coadjuvante, Trilha Sonora Original, Fotografia, Maquiagem e Penteados, Figurino, Roteiro Adaptado, Som e Direção de Arte.
Relembre a resenha de Roger Lerina.
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