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Fragmento de Edgar Morin para emoldurar

Intelectual francês foi sepultado na última quarta-feira em Paris

Fragmento de Edgar Morin para emoldurar

“Seria interessante acompanhar os mesmos combates em outros campos. Mas isso daria outro livro, e o objetivo aqui é dar elementos suficientes para a aprovação ou, ao menos, o acompanhamento do fio do meu raciocínio. Salientemos de passagem a guerra na psicologia, que está dividida, como a Polônia esteve entre três impérios, entre vários imperialismos. Por um lado, o paradigma objetivista tenta audaciosamente a sua última conquista com o behaviorismo. Em 1913, Watson proclamara: ‘Chegou o tempo de a psicologia descartar qualquer referência à consciência’.

“O sujeito foi eliminado e os objetos foram delimitados. Por outro lado, surgiu com Freud uma das tentativas mais ricas e mais complexas que se possa imaginar, pois ela permite ligar, de modo antagônico e complementar, as instâncias biológicas (organísticas) ou pulsionais (Triebe) e sociológicas (a família, a cultura e a sociedade presentes no superego, assim como no ideal do ego). Porém, como para Marx, essa complexidade foi posta de lado pelos epígonos e, no próprio freudismo, se conseguiu expulsar a biologia e o sujeito (Jacques Lacan), enquanto que, noutro extremo, uma corrente retomou um humanismo clássico enriquecido (Erich Fromm) e outra foi para o ocultismo (Carl Gustav Jung).

“No começo do século XX o paradigma objetivista alcançou uma conquista decisiva no cerne mesmo do que se tomava como emanação do sujeito: a linguagem. Saussure, restabelecendo a dicotomia entre língua e fala, duplica a dicotomia sujeito e objeto. A língua torna-se objeto da ciência. A fala, naquilo que ela tem de variável, de aleatório, remete ao sujeito, que é a aleatoriedade individual; a sua parte estruturada tem a ver com o objeto língua. A linguística estrutural construiu-se eliminando rigorosamente o sujeito. Eliminou a semântica e a lógica, ou seja, tudo para que e para quem funciona a estrutura da língua. Os êxitos da linguística estrutural foram tais que essa carência foi considerada provisória ou secundária. O avanço da linguística estrutural na antropologia (estrutural) e em diversos campos permitiu a cada área determinar um objeto bem delimitado (fechado) e expulsar o sujeito, numa lógica determinista. Assim, o sujeito foi expulso por toda parte, como o rei dos reis por Alexandre, até a sua morte vergonhosa, cometida pelos seus próprios súditos, os próprios sujeitos dos sujeitos, os homens de letras.

“Foucault deu a estocada final. Foi o último avanço, a última vitória do paradigma de exclusão. Foi também a derrota do paradigma da ordem, pois a descontinuidade não racionalizável instala-se entre os objetos: não há mais leis gerais, tem-se uma episteme particular a cada vez. O caso, porém, não estava concluído; seria necessário esperar que a nova física, nascida da termodinâmica, chegasse às ciências humanas para que reaparecesse a desordem expulsa. Seria necessário também esperar o nascimento da biologia organizacional para que aparecesse a complexidade.

“Nessa perspectiva pode-se compreender que as resistências “reacionárias”, dado que aparente- mente anticientíficas, do sujeito, do acaso, do inesperado na ciência, longe de ser irracionais, fossem resistências do que era negado contra o que era mutilante e manipulatório, mas também resistência aos idealismos nebulosos, aos espiritualismos xaroposos, às ideologias que queriam que olhássemos o céu para não ver o que se passava na Terra. Era também a resistência dos homens como objetos e a resistência à ocultação dos sujeitos manipulados e manipuladores.”

(Morin, Edgar. O método do Método: o original perdido. Porto Alegre: Edipucrs, 2025).

 

 

Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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