Levo muito em consideração as análises de Dominique Wolton, que conheço desde os anos 1990, em Paris, pelo fato que, por trás da sua afetividade sempre explícita e agitada, há uma coerência racional baseada em ponderação e numa aposta permanente em diálogo. Além disso, sem paixões ideológicas, ele consegue ver claro onde outros racionalizam.
O diálogo para Wolton não resulta da simples boa vontade de políticos inspirados, mas da correlação de forças militares e econômicas. Negocia-se para não perder e evitar a guerra, que, no caso da Europa, com a experiência de dois conflitos mundiais, soa como o pior dos mundos.
Para Wolton, haverá um limite às loucuras de Donald Trump se existir união entre os seus alvos. Ele não crê que os Estados Unidos invadam a Groenlândia pelo que isso significaria em termos das relações com a Europa.
Na questão militar, destaca Wolton, só a França, na Europa, tem autonomia nuclear, além da Rússia. A Inglaterra precisa de aviões com tecnologia americana para usar o seu arsenal. Além disso, a bomba atômica é uma arma dissuasiva. Não se vai jogar uma bomba atômica em Nova York.
Negociar, porém, não é dobrar joelhos. A Europa terá de adotar medidas para mostrar a Trump que não está intimidada. Por exemplo, com taxação de produtos americanos. Potência econômica mundial, a Europa tem cartas na manga que pode usar, mas é necessário, entende Wolton, ter paciência nesse jogo para não se cair nas armadilhas da precipitação.
Quem vai parar Donald Trump?
Essa é a questão que interessa. Para Dominique Wolton, Trump será parado pela China, pela Europa e pelos norte-americanos. Se a Europa taxar produtos dos Estados Unidos e se Trump cumprir as ameaças de taxar em 200% produtos franceses, as consequências sobre a economia dos Estados Unidos serão tão graves que a insatisfação popular determinará mudanças na política destrambelhada do presidente mais inusitado da história dos Estados Unidos nos últimos cem anos.
Em Davos, Donald Trump chicoteou a Europa dizendo que ela descarta tudo que produz a riqueza das nações, apostando em energia eólica, o que lhe parece o próprio sinal do fracasso, e não explorando os seus recursos por crenças inadequadas e mentiras da esquerda. Sobre a Groenlândia, foi incisivo: “Só os Estados Unidos podem protegê-la. Lembro que, na Segunda Guerra Mundial, a Dinamarca perdeu a Groenlândia para a Alemanha em seis horas, o que obrigou os Estados Unidos a enviar tropas para salvar a ilha.
Para Dominique Wolton, Donald Trump testa o mundo com suas ameaças e com o seu imenso poder de comunicação. Será necessário enfrentá-lo no terreno dos atos. Se o homem é louco, não adianta bancar o louco com ele.