Estados Unidos e Europa vivem sempre uma relação conturbada feita de rejeições, fascínio, amor, ódio, interesses comuns e visões diferentes.
A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã está mudando a Europa. Talvez para sempre. Ou, ao menos, por muito tempo. Depois de décadas dependendo dos norte-americanos em questões de defesa, os europeus descobriram que precisam se armar mais e melhor para ter independência e influência nos grandes temas mundiais do momento. O apoio incondicional dos países europeus a Israel também está em erosão. Uma nova aproximação entre ingleses, franceses e alemães avança em meio a crise do Oriente Médio.
Por enquanto, nesse emaranhado de contradições, só a França tem verdadeira autonomia militar, com seus submarinos atômicos. A Inglaterra é uma potência atômica pela metade. Depende de autorização tecnológica americana para que seus aviões possam decolar com bombas atômicas.
Se cresce, com o trumpismo, a rejeição à Europa, considerada arrogante e elitista, aumenta também na Europa o ódio aos Estados Unidos.
Uma metamorfose geopolítica cozinha em fogo alto. Durante muito tempo, por inacreditável que pareça, europeus acreditaram que eram amados pelos norte-americanos. Essa ideia romântica vinha do papel desempenhado pelos Estados Unidos na libertação europeia do jugo nazista. Não há, porém, amor que dure sempre entre nações que vivem de interesses econômicos.
O sonho acabou. Donald Trump quer colonizar a Europa, que prefere o seu modo de vida à barbárie hipermoderna norte-americana. Os europeus apostaram na paz, ainda que a Rússia tenha invadido a Ucrânia, enquanto Donald Trump trouxe de volta a paixão total pela guerra e pelos seus efeitos. Dois mundos se chocam. Nada do que era sólido se mantém visível.
Será que a Europa ajudará os Estados Unidos e Israel a liberarem o Estreito de Ormuz? O pragmatismo indica que sim. Pelo coração, seria não.
Não seria surpreendente se europeus comemorassem uma derrota dos Estados Unidos no Irã. Europeus não amam o Irã, cuja ditadura dos aiatolás figura entre as mais violentas do planeta há décadas, mas sabem que os Estados Unidos entraram na onda de Israel e criaram um problema global.
No mundo atual, cínico e realista, só tem soberania quem pode defender seu território contra agressões estrangeiras. Europeus conseguem?
Poderiam vencer a Rússia sem apoio dos Estados Unidos? Para os europeus democráticos não há qualquer dúvida no que se refere ao conflito entre russos e ucranianos: a Rússia é o agressor, que deve ser rechaçado.
Não se trata de só mover peças num tabuleiro geopolítico. Há pessoas, história, política e cultura. A Europa levou a sério os conceitos de soberania nacional e de autodeterminação dos povos. Para Trump, só existe soberania armada. A Doutrina Trump amplia a política do big stick (“fale suavemente, mas carregue um grande porrete” para o caso de necessidade).
Donald Trump não se contenta com a América para os americanos. Quer o mundo. Apenas o mundo. Até que ponto o ideal de Trump corresponde ao dos Estados Unidos? As pesquisas de opinião mostram o presidente em baixa.
No seu campo, porém, ele continua impávido.
A Europa, enfim, percebeu o atoleiro em que se meteu.