A leitura de jornais europeus na quarta-feira (14) de manhã, como costumo fazer todo dia depois de minhas caminhadas na Redenção, me deixou acabrunhado. Três chamadas do circunspecto e sempre prestigioso Le Monde bastaram para me derrubar. Fiquei como se não houvesse amanhã:
“As autoridades iranianas pedem apreensão dos bens de manifestantes”.
“Na Cisjordânia, a universidade palestina de Birzeit ainda se recupera, uma semana após o exército israelense ter aberto fogo contra estudantes”.
“A Rússia intensifica seus ataques contra a Ucrânia, que está sob uma onda de frio polar”.
A Europa, acostumada ao conforto, esconde-se na covardia. Tem medo de Vladimir Putin e de Donald Trump.
A ordem mundial construída depois de 1945 acabou. A Organização das Nações Unidas (ONU) não passa de um efeito decorativo. A Organização dos Estados Americanos (OEA) não tem voz para abalar quem quer que seja.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) teme a invasão da Groenlândia pelos Estados Unidos. Se isso acontecer, será o seu fim. Os sinais já dobram por ela sob o gelo.
Mais impressionante é ouvir ativistas de esquerda defendendo o regime iraniano, o autocrata Putin e regimes ditatoriais de estimação.
O Irã vive sufocado por uma ditadura abjeta, que oprime mulheres, não aceita gays, possui a sua polícia moral e vive uma crise econômica enorme.
Não deixa de ser curioso ver alguém defender em bloco Putin e Khamanei – líder do regime iraniano – para atacar Trump e Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Não dá para atacar a todos?
É o velho raciocínio pretensamente geopolítico: os inimigos dos meus inimigos são meus amigos, mesmo que sejam ditadores carniceiros.
A nova desordem mundial baseia-se na política do dedo do meio.
Manchete: “Donald Trump faz um gesto obsceno para alguém. A Casa Branca defende a atitude como uma resposta ‘apropriada’. Durante uma visita a uma fábrica da Ford em Detroit, Michigan, o presidente americano reagiu a uma pessoa que, segundo o TMZ, o questionou sobre sua ligação com Jeffrey Epstein, o criminoso sexual condenado que morreu na prisão em 2019”.
O presidente dos Estados Unidos mostrou o dedo do meio para a pessoa que o interpelava. Trump vem mostrando o dedo do meio para o mundo.
Essa é a sofisticação do homem mais poderoso do planeta.
Ele mandou os dois conceitos estruturantes das relações internacionais modernas – soberania nacional e autodeterminação dos povos – para o lixo da história atual sem a menor dificuldade. Com ele, vale uma única lei: a da força. Poucas vezes se viu um homem de tanto poder gabar-se da força de seu país como faz Trump a cada entrevista coletiva.
Muito olhar francês? O britânico The Guardian informa:
“Judiciário do Irã promete julgamentos rápidos para manifestantes presos, apesar das ameaças de Trump”.
No italiano Corriere della Sera:
“Trump: ‘Qualquer coisa menos que a Groenlândia é inaceitável’”.
Eis a máquina do tempo: voltamos às guerras expansionistas. Qualquer coisa menos do que o território alheio é inaceitável para o dono da força.
E o tolo do Francis Fukuyama achava que era o fim da história.
Ele está vivo. O que andará pensando de tudo isso?