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O Agente Secreto e o carro elétrico

Filme de Kleber Mendonça Filho suscita paixões e controvérsias

O Agente Secreto e o carro elétrico
Imagem: Reprodução

Nesta quinta-feira saem as indicações para o Oscar 2026. O Brasil está de coração na mão batendo por Wagner Moura e pelo Agente Secreto.

Nando Gross e eu gravamos o nosso Pensando Bem – programa que vai ao ar na FM Cultura no próximo sábado, às 9h –, com craques quando o assunto é cinema: Monica Kanitz, curadora da cinemateca Paulo Amorim, Eron Duarte Fagundes, cinéfilo e leitor de primeiríssima linha, e Carol Zatt, que já trabalhou no Jornal do Comércio e escreve sobre filmes para O Brasil de Fato.

Tivemos uma animada discussão sobre o filme de Kleber Mendonça Filho, que, do meu ponto de vista, pode e deve ganhar o Oscar de melhor ator para Wagner Moura e talvez de melhor filme estrangeiro. O melhor filme na categoria geral, no entanto, eu daria para Hamnet, de Chloé Zao.

No debate manifestei meu incômodo com alguns pontos do roteiro de O Agente Secreto, entre eles porque a pesquisa universitária que motiva a perseguição ao protagonista é sobre carros elétricos, num filme que se passa 1977.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), numa postagem no Facebook, também se incomodou com isso: “Temos o personagem principal como diretor de um departamento de oceanografia, mas há alusões frequentes a uma pesquisa sobre carro elétrico, algo muito bem-vindo hoje, mas que certamente não faria parte de uma pesquisa em oceanografia e não estava na ordem do dia naquela época”. A morte do pesquisador é encomendada por causa disso.

Insisti que considero pouco justificada essa motivação no filme. O Brasil, no entanto, teve um carro elétrico, o primeiro da América Latina, em 1974, obra de um empresário visionário de São Paulo chamado João Augusto Conrado do Amaral Gurgel. Esse carro foi batizado de Gurgel Itaipu.

O problema dele era bateria. Num veículo de 780 quilos, a bateria pesava 320. Tinha autonomia para rodar de 60 a 80 quilômetros antes da recarga, que durava cerca de dez horas. O Gurgel foi quase um teste.

Imagino que se uma universidade estivesse desenvolvendo uma bateria de lítio, em qualquer parte do Brasil, isso interessaria muito a Gurgel.

Ao homem e ao carro. Assassinar o pesquisador seria matar a possibilidade de êxito na casca. Não parece crível também que um mesmo departamento, por mais transdisciplinar que já fosse, se ocupasse de tantos objetivos díspares de pesquisa, do couro a bateria de carros elétrico.

O roteiro de O Agente Secreto me parece, às vezes, um tanto descosturado. A amarração (Eron discorda de mim) vem com uma fala discursiva da personagem de Maria Fernanda Cândida. Soa como uma costura retórica. Muitos fãs do filme dizem que essa abertura é o forte da obra.

Meu amigo Eron defende que em arte forma e conteúdo são indissociáveis. É uma tese sofisticada de quem tem gosto sofisticado. Eu costumo ver separação entre o que se conta e como se conta. Às vezes, o que se conta é tão interessante que a falta de uma boa forma até desaparece.

O Agente Secreto conta bem uma história que ganharia em ser mais enxuta. Do que fala? Das mitologias de Recife nos anos 1970, quando um menino se deslumbrava no Cinema São Luís e uma perna cabeluda, talvez a dos agentes da ditadura, assombrava as pessoas nas noites da capital.

Como todo bom filme, com acertos e ressalvas, oferece muitas leituras: pode ser sobre a ditadura de 1964; pode ser sobre bolsonarismo e antibolsonarismo com o presente transportado para o passado; pode ser sobre nordeste e sudeste; pode ser mais uma face da polarização brasileira atual; pode ser sobre Recife, Kleber Mendonça Filho, cinema e outros mistérios; pode ser uma novela da Globo com histórias e personagens que surgem e desaparecem sem muita justificativa ou motivação e um vilão caricatural.

Jorge Coli, professor titular de História da Arte da Unicamp, faz uma análise a contracorrente do entusiasmo: “Há, nesse filme, uma ausência estratégica do Estado. A repressão não é encarnada pelo aparelho estatal [...] A perseguição se desloca para a esfera privada, personalizada: um industrial, economicamente poderoso, vindo do ‘estrangeiro’, cheio de um ódio pessoal pelo protagonista. Ódio correspondido de maneira visceral. (O motivo do ódio, dado pelo filme, parece pífio, pelo menos para mim)”.

Já Pablo Ortellado, no jornal O Globo, rotulou o filme de Kleber Mendonça Filho de “equívoco político”: “A segunda oposição com que o filme trabalha é mais juvenil. Aqui, O Agente Secreto retoma a visão política simplória de Bacurau. Mendonça Filho reedita o antagonismo esquemático entre um Nordeste popular, tolerante e resistente e um Sudeste capitalista, arrogante, racista e colonizador”. Para Ortellado, “Ghirotti é um vilão esquemático, sem qualquer densidade psicológica”. Mais do que isso, “não é um apoiador do regime com medo da tirania comunista ou um empreendedor orgulhoso daquilo que construiu”.

Enfim, é “apenas um cafajeste que defende, sem qualquer elaboração, injustiças flagrantes e privilégios”.

Talvez aí a alusão seja ao momento em que o roteiro foi escrito. O cineasta diz que o filme não existiria sem Jair Bolsonaro. Quem está certo? Não sei. Temo que seja uma briga dessas em que se perde sempre.

A pesquisa no filme, mesmo em tempos de Gurgel, me deixa dubitativo. Mas isso não tira a razão de Kleber Mendonça Filho: o carro elétrico fazia parte do imaginário da época, como a perna cabeluda, o tubarão e o agente secreto. Afinal, o carro elétrico teve realidade até por volta de 1920. Entre o simples e o complexo, vence o nós contra eles num momento em que a Copa do Mundo parece longe.

Torço por um troféu para Wagner Moura e, ao menos, uma indicação para Tânia Maria. O resto, como diria William Shakespeare, é silêncio.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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