Cada vez que aparece uma nova ferramenta de Inteligência Artificial me convenço ainda mais de que a tecnologia vai dispensar o humano médio, nós, de qualquer atividade intelectual. Os gênios vão criar essas máquinas, que, para nós, são incompreensíveis como televisões: apenas sabemos usar.
Em 2024, o Google lançou no Brasil o NotebooKLM versão web, brinquedinho que facilita, por exemplo, atividades escolares, em qualquer nível, e trabalhos de cruzamento de dados. Uma versão para Android e iOS foi lançada no ano seguinte. Enfim, basta subir arquivos e pedir para a ferramenta tirar conclusões e organizar uma apresentação. Pegue dados da empresa e peça um relatório.
Suba opiniões diferentes e peça uma síntese. Boa parte do trabalho intelectual de cada humano não é criativo nem original, consistindo em associar diferentes dados, que precisam ser lembrados, localizados, conferidos e articulados com outros. A máquina tem memória melhor, calcula mais rápido, mistura tudo e solta o resultado num lapso de tempo que torna nossas mentes obsoletas. Já se chamou de gênio quem tinha boa memória. Acabou. A máquina engole tudo e não esquece nada. Aproxima Capitu de Emma Bovary. Antes da pessoa coçar o nariz a coisa já está pronta e entregue.
Pode-se correr e usar em todas as nossas atividades. Aconselho. Nada disso afasta a sombra que se agiganta: o que será do que fomos um dia?
Todo um sistema baseado em memória e combinação de dados encontrou um realizador mais forte. Em Harvard, nome que faz as elites tremerem de desejo, as notas dos estudantes com tutores artificiais são melhores.
O humano como criador intelectual está em decadência. Talvez as máquinas nos usem para testar a sua capacidade de melhorar seres limitados.
NotebooKLM é um criador de resumos, um sintetizador sem limites, um espírito que faz o favor de pensar por quem lhe pede ajuda.
Penso, logo existo? Descartes já era. Agora é descanse enquanto eu penso no seu lugar. Pode-se aprender com isso se houver vontade e atenção.
A pergunta agora é: foi você mesmo quem fez?
Ou: Foste tu mesmo quem fez?
Ou: Foi tu mesmo que fez isso?
Cronistas ainda fazem as suas crônicas ou terceirizam para IA?
Resultado da comparação entre Capitu e Emma feita em cinco segundos pelo GPT
1. Origem e contexto social
- Capitu (Dom Casmurro, Machado de Assis) nasce num meio modesto, carioca, século XIX. Vive numa sociedade patriarcal rígida, onde a mulher tem pouco espaço de ação.
- Emma Bovary (Madame Bovary, Flaubert) também vem de origem simples, mas casa-se com um médico e entra numa burguesia provinciana francesa, igualmente opressiva, porém cheia de fantasias românticas.
As duas estão presas a contextos sociais que limitam seus desejos — mas reagem de formas bem diferentes.
2. Psicologia e desejos
- Capitu é pragmática, inteligente, calculista. Ela entende o mundo como ele é e aprende a jogar conforme as regras.
- Emma é sonhadora, impulsiva, romântica. Vive insatisfeita porque compara a realidade aos romances idealizados que leu.
Capitu adapta-se à realidade; Emma tenta escapar dela.
3. Amor e casamento
- Capitu vê o casamento como estratégia de sobrevivência e ascensão social, mas também como afeto real (ao menos inicialmente).
- Emma vê o casamento como promessa de paixão absoluta — e se frustra profundamente quando encontra monotonia.
Capitu age; Emma se decepciona.
4. Traição: fato vs. suspeita
- Capitu é acusada de traição, mas nunca sabemos se ela traiu de fato. Tudo vem do olhar ciumento e pouco confiável de Bentinho.
- Emma trai sem ambiguidade: os casos amorosos são explícitos e centrais no romance.
Capitu vive sob o julgamento do outro; Emma escolhe transgredir.
5. Narrativa e julgamento moral
- Capitu é construída por uma narrativa enviesada, que a transforma em enigma.
- Emma é observada por um narrador mais distanciado, quase clínico, que expõe suas ilusões e fraquezas.
Capitu é um mistério; Emma é um retrato psicológico.
6. Destino final
- Capitu sobrevive, se afasta, envelhece — carrega a dúvida.
- Emma não suporta a frustração e termina no suicídio.
Capitu resiste; Emma implode.
Em síntese
Capitu é a mulher da astúcia e da ambiguidade, moldada pela necessidade.
Emma Bovary é a mulher do excesso e do desejo, destruída pela fantasia