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O que é o imaginário?

Um dedo de abstração teórica num mundo concreto

O que é o imaginário?
Quem pensa os seus males compreende/Foto de Ana Cláudia Rodrigues

 Estávamos passeando numa manhã dominical ensolarada demais para novembro, contrariando previsões de chuva, no “brique” da Praça do Peyrou, em Montpellier, deslocado para o caminho sob os arcos do imponente Aqueduto São Clemente por causa da feira de Natal que está sendo montada, quando vi uma velha edição de L’imaginaire, de Jean-Paul Sartre, que tenho e costumo relar sem jamais concordar.

O subtítulo, para quem é do ramo, diz muito: “Psicologia fenomenológica da imaginação”. Para Sartre, a imaginação controla o imaginário, que se torna quase uma distorção de algo ou falsificação.

Para mim, leitor de Michel Maffesoli, Edgar Morin, Gilbert Durand, Gaston Bachelard, Cornelius Castoriadis, Jacques Lacan, Paul Feyerabend e Yuval Harari, a imaginação precede o imaginário, mas se submete a ele por ricochete, como se um só pudesse viver pelo outro.

É preciso religar imaginário e imaginação, mas o imaginário não se reduz a um efeito distorcido da imaginação. Ele é a imaginação involuntária que se concretizou como fenômeno social compartilhado.

Um real que retorna como imaginação não proposital ampliada por sua dimensão vivida. Não imaginamos o que vamos viver. Vivemos o que alimenta a nossa imaginação. O imaginário alimenta a imaginação, que nutre o imaginário. Quem vem primeiro, o imaginário ou a imaginação?

O acontecimento. O imaginário é aquilo que sobra, transfigurado, de um acontecido qualquer e que será potencializado pela imaginação.

Não existe conceito verdadeiro ou falso. Depende do referencial que se está usando. Imaginário segundo Durand ou Castoriadis?

Mesmo Michel Maffesoli, principal discípulo de Durand, esse autor do monumental Estruturas antropológicas do imaginário, não segue literalmente as definições do seu mestre, que são várias e amplas.

Maffesoli procede por “deslizamento conceitual”, partindo de uma interpelação para uma apropriação pessoal e original. Para Maffesoli, imaginário é atmosfera, ar do tempo, espírito de uma época.

Para Edgar Morin, um feixe de ideias obsessivas mobilizadoras.

Para Castoriadis, uma força criadora de realidades sociais.

Para Harari, ficções e mitos socialmente compartilhados como realidades que dão sentido a comunidades ou nações em certo momento.

Para Feyerabend, o que permite descobrir “traços do real”.

Para Durand, na minha interpretação, as mitologias fantásticas do cotidiano, os unicórnios que nos espreitam nas esquinas da vida.

Maffesoli enxerga também o imaginário como “magificação” da vida, aquilo que dá uma “aura” ao banal, ao comum, ao ordinário.

Pode-se dizer que o conceito de imaginário usado por A não corresponde ao do autor X. Não se pode negar, porém, espaço na esfera intelectual para diferentes interpretações ou concepções.

Durand define o que chama de “trajeto antropológico” como “a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas emanadas do meio cósmico e social”. Para mim, essa é a própria definição de imaginário.

Imaginário como trajeto antropológico.

Edgar Morin conceitua mito como “um conjunto de condutas ou situações imaginárias”. Imaginário poderia muito bem ser um conjunto de condutas ou situações míticas ou mitologizadas.

Não se cria imaginário em laboratório ou agência publicitária. Só indiretamente. Afinal, os imaginários precisam de tecnologias.

Sartre é um autor imaginário.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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