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De almas mortas à família assassinada

Parêntese #317

De almas mortas à família assassinada
Imagem: Reprodução / Alfaguara

Li no avião, de Porto Alegre a Recife, voo direto de quatro horas, o romance O adversário, do francês Emmanuel Carrère, que adotou um método próprio: pega uma notícia de jornal e a partir desse fragmento desenvolve um romance em tom de grande reportagem. Truman Capote fez isso no clássico romance de não ficção À sangue frio. No caso de O adversário, Carrère conta a história de um sujeito mitômano, que se fazia passar por médico e dizia trabalhar na OMS, em Genebra, até que, temendo ser desmascarado, depois de muito anos, mata a mulher, os filhos e seus velhos pais. Não queria que eles tivessem a decepção de saber a verdade.

A história é bem contada? Muito. Carrère escreve com a limpidez de um grande jornalista e a capacidade de análise psicológica de um magistral romancista. A leitura prende? Totalmente. Não se para um instante. Nem mesmo para comer aquele amendoim horrível servido pela Azul. O livro foi bem recebido pela crítica? Só aplausos. The Guardian disse que se trata de uma obra “escrita com profundidade investigativa e a empatia de um romance”. Le Monde garante que “Carrère não apenas reconstituiu a engrenagem dos crimes, mas buscou compreender quais forças obscuras moviam seus mecanismos”. Disse ainda que o escritor “se expôs ao perigo, e seu livro desponta incandescente dessa imersão”. Ou seja, uma obra-prima.