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Histórias de Autógrafos: Ian McEwan em “Reparação”

Parêntese #317

Histórias de Autógrafos: Ian McEwan em “Reparação”
Imagem: Arquivo de Carlos Gerbase

O processo de adaptação de uma obra literária para o cinema é, ao mesmo tempo, divertido e desafiador. Divertido porque permite ao roteirista trafegar entre duas linguagens poderosas e com longas tradições no mundo da narrativa (admitindo sempre, é claro, que a literatura é alguns milênios mais antiga). Desafiador porque exige conhecimento de ambas para que o resultado possa ser, ao menos, digno, do ponto de vista cinematográfico. Quanto mais bem-sucedido (ou canônico) é o romance a ser adaptado para um longa-metragem, maior o peso que recai sobre os ombros do roteirista. Não falo aqui de uma suposta “fidelidade” ao original. Esse conceito é uma bobagem, algo a ser debatido alegremente numa mesa de bar. Falo da capacidade de transportar as qualidades literárias de uma boa história para outra linguagem, bem diferente. Falo de fazer um bom filme. A “fidelidade” aos eventos e personagens pode ser maior ou menor, depende do que se quer e de como se trabalha.

O autógrafo que colhi de Ian McEwan em seu romance Reparação é precioso porque ali está a assinatura de um dos maiores escritores contemporâneos do nosso planeta. Hoje com 77 anos, McEwan é voz poderosa nos campos literário e político há décadas. É natural que a indústria cinematográfica aproveite suas histórias para fazer filmes. Reparação, por exemplo, transformou-se no filme Desejo e Reparação (título no Brasil), com adaptação de Christopher Hampton e direção de Joe Wright. Bom filme, com atores talentosos, bela reconstituição de época e sensíveis ideias cinematográficas. Recomendo ler o livro e ver o filme. Discutir qual é o “melhor” é uma brincadeira bem divertida, admito, mas, para mim, não faz sentido.

No entanto, como eu gostaria de fazer uma pergunta a McEwan sobre a adaptação de uma de suas melhores obras! O próprio McEwan roteirizou seu romance Na Praia, de 2007, para o cinema. Com direção de Dominic Cooke, é um belo longa-metragem, lançado em 2018, com atores menos conhecidos e uma produção bem menos dispendiosa que a de Desejo e Reparação. Há uma cena fundamental no livro, que se passa no interior de um barco, envolvendo Florence (personagem principal da trama, quando ainda era criança) e seu pai. No texto, fica evidente que houve algum tipo de abuso por parte do pai, que terá consequências psicológicas terríveis para Florence em seus relacionamentos amorosos. Como leitor, contudo, fiquei com a sensação de que McEwan poderia ser mais claro sobre que tipo de abuso aconteceu. Não seria necessário qualquer componente explícito (e necessariamente desagradável). Apenas avançar um pouco mais a ação.