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Susana, a casta, e Daniel, o profeta – Uma história mal contada

Parêntese #317

O dilema de Susana

Na língua portuguesa falada no Brasil, costuma se dizer que "uma história está mal contada" quando se supõe que o narrador deformou deliberadamente a narrativa, omitindo ou acrescentando detalhes para que alguns personagens se saiam melhor (ou pior) no desfecho. Um desses relatos, um clássico da Bíblia, mas também das artes, é a história da casta Susana. O número de pinturas em que Susana é assediada por dois anciãos abjetos é incontável, incluindo obras de uma mulher, Artemísia Gentileschi, e de grandes mestres como Tintoretto, Rembrandt e Rubens, que lhe dedicou três versões. Em todas as telas, Susana é representada como uma mulher sedutora e adequadamente nua, o que não implica, é claro, que ela não fosse virtuosa. Já os velhos variam de cinquentões com aspecto distinto até anciões que hoje denominaríamos em linguagem pejorativa como caducos. 

Para começar, digamos que o nome Susana vem do hebraico Shoshanna. Pois bem, o nome Shoshanna está associado à flor do lírio e é uma espécie de símbolo da pureza. Ou seja, falar da casta Shoshanna é um pouco redundante.

Voltando à Susana bíblica, ela era a esposa de um alto funcionário judeu que residia na Babilônia, cidade famosa por seus jardins. Sobre residir na Babilônia, digamos que no ano 586 a.C., Nabucodonosor II conquistou Jerusalém e destruiu o templo. Como espólios da vitória, levou um número significativo de hebreus para a Babilônia, particularmente da tribo de Judá. No entanto, e segundo a Wikipédia: "Apesar de se considerar geralmente o Cativeiro da Babilônia como um desterro total do povo hebreu, a transferência de população só afetou as classes altas hebreias. Os conquistadores de Israel tinham interesse em impedir que ali ressurgisse um poder político forte, e para isso, 'importaram' à força a classe dirigente que seria capaz de liderar uma possível revolta. As classes mais baixas, por sua vez, não foram em larga escala afetadas por esse exílio compulsório."

Aparentemente, essa classe alta israelita gozava na Babilônia de um nível de vida que não podia ser considerado escravidão. Segundo o relato do profeta Daniel, o marido de Susana, Joaquim, era um homem muito rico. Diz o texto bíblico (Daniel 13, 1-4): "Vivia na Babilônia um homem chamado Joaquim. Ele se casara com uma mulher chamada Susana, filha de Hilquias, que era muito bela e temente de Deus; seus pais eram justos e haviam educado a sua filha segundo a lei de Moisés. Joaquim era muito rico, tinha um jardim contíguo à sua casa, e os judeus costumavam ir até ele, porque era o mais prestigiado de todos." Joaquim era também o nome do rei de Judá quando da invasão de Nabucodonosor II, mas não fica claro no texto bíblico se esse rei é o mesmo Joaquim marido da bela (e casta, não esqueçamos) Susana.

Pois bem, os judeus na Babilônia também tinham seus próprios juízes e estes eram dois anciãos, que justamente celebravam os julgamentos nos jardins de Joaquim onde, por sua vez, Susana realizava seus passeios.

Aparentemente, a lascívia apoderou-se dos dois anciãos, diz Daniel (13, 9-12): "Quando todo mundo já se tinha retirado, ao meio-dia, Susana entrava para passear pelo jardim de seu marido. Os dois anciãos, que a viam entrar para passear todos os dias, começaram a desejá-la. Perderam a cabeça, deixando de olhar para o céu e esquecendo seus justos juízos. (…) e tratavam afanosamente de vê-la todos os dias."

E como nas boas novelas de televisão, apresentou-se finalmente a oportunidade desejada e representada nas muitas pinturas de que falamos no início. Os velhotes haviam adotado o costume de se esconder no jardim para observar Susana com mais tranquilidade até que, um belo dia, de muito calor, a bela decide banhar-se no jardim (supomos que houvesse fontes ou piscinas lá). Diz Daniel (13, 17-18): "Ela disse às donzelas: 'Trazei-me óleo e perfume, e fechai as portas do jardim, para que eu possa banhar-me.' Elas obedeceram, fecharam as portas do jardim e saíram pela porta lateral para trazer o que Susana havia pedido; não sabiam que os anciãos estavam escondidos."