Ainda estávamos ajustando os ponteiros de 2026, que recém tinha começado, quando o governo dos Estados Unidos anunciou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ele foi retirado de sua casa, em Caracas, juntamente com a esposa, na madrugada de 3 de janeiro. O casal foi levado de helicóptero até um navio estadunidense e, de lá, foi transportado para Nova York, onde segue preso.
O sequestro de um chefe de Estado a mando de outro chefe de Estado é algo realmente impressionante, em vários aspectos. A começar pela violação de acordos internacionais: os princípios da soberania, da igualdade jurídica entre Estados e da proibição do uso da força, premissas básicas do direito internacional. Apesar disso, nessa história, não há mocinhos e bandidos.
Temos, de um lado, a maior potência bélica do mundo, com histórico intervencionista e comportamento imperialista, que teve, inclusive, participação ativa nas mais recentes ofensivas à democracia brasileira, em 31 de março de 1964 e em 8 de janeiro de 2022, para dizer o mínimo.
De outro lado, também em resumo, um país latinoamericano detentor da maior reserva de petróleo do mundo, com sua história recente fundada sobre uma utopia socialista com forte apelo popular, mas cujos sonhos foram arruinados pela falta de apreço à democracia, deixando o país envolto em miséria, corrupção e violências de Estado.
Condenar a intervenção dos Estados Unidos não passa por defender Nicolás Maduro. E comemorar a deposição de Maduro não significa que Trump é o salvador da pátria – nem literal nem simbolicamente.
Falando assim, essas descrições parecem frias, distantes ou até alegóricas, como se fossem de uma partida de War, o jogo de tabuleiro. O jeito como essas histórias são contadas, do noticiário ao debate acadêmico ou em outros espaços de reflexão, banaliza narrativas que, na verdade, têm corpo. E esses corpos têm gênero e classe social, além de família, amigos, sonhos, enfim, vidas em sua plena complexidade, que acabam atravessadas pelas consequências do jogo político decidido nas cúpulas do poder. E é por essa complexidade (subjetiva, social, rasteira) que a boa literatura se interessa.
Naquele 3 de janeiro de 2026, estimulada pelo noticiário, comecei a ler Voltar a quando, de Maria Elena Morán, escritora venezuelana radicada no Brasil, nascida em Maracaibo, capital do estado de Zulia, a 700 quilômetros de Caracas, próximo à divisa com a Colômbia.
O romance conta a história de uma família venezuelana (Nina, Elisa, Graciela, Raúl e Camilo) que outrora se via unida em torno dos ideais da Revolução Bolivariana, mas com o passar dos anos acabou destroçada pelos efeitos do regime chavista em seu país. “Quem decidia onde terminava a história de um país e começava a de uma família”, afinal?
Cada capítulo apresenta um personagem, seus pensamentos e ações, sonhos e emoções. Quando a escrita acontece em terceira pessoa, o narrador é onisciente e generoso e nos revela as vulnerabilidades de cada personagem, seus medos e anseios, gerando empatia. Nos conta passagens de suas vidas sempre com ressalvas, para que ninguém se cobre demais sobre as consequências de seus atos: em Voltar a quando, não há jornada do herói. Estão todos à deriva num contexto hostil, com pouca ou nenhuma agência sobre as próprias vidas, à mercê da miséria e da violência. São apresentadas deste modo as histórias de Nina, Graciela, Elisa e Raúl – este último, direto de seu jazigo no cemitério. Somente Camilo tem sua história contada em segunda pessoa, como quem aponta o dedo e acusa, expõe e humilha sem dó. A escolha, nesse caso, é estética, mas também ética e política.
Nina, a protagonista de Voltar a quando, decide emigrar para o Brasil em busca de trabalho, longe da insegurança generalizada que assolava seu país. Ela queria um lugar onde pudesse recomeçar uma vida ao lado de sua filha, Elisa, e de sua mãe, Graciela, que ficaram em Maracaibo. O plano de Nina era chegar em Porto Alegre, juntar dinheiro e trazê-las para morarem juntas novamente.
Elisa tem 13 anos e se nega a atender as ligações da mãe, pois se sentiu abandonada com sua partida para o Brasil. Ficou em Maracaibo sob a guarda da avó, de quem ela mais cuida do que é cuidada. A escola já não funciona mais, há pouca comida e os vizinhos se ajudam quando os armários da casa ficam vazios: “Quando se tem treze anos e a sua mãe está longe, a única coisa que dura o dia todo é a saudade”.
O fornecimento de água no bairro é incerto, raro, mas já não faz mais diferença, já que Graciela se nega a tomar banho e quase não sai do quarto, onde, segundo ela, vive melhor na companhia de seus mortos: a mãe e seu marido Raúl, com quem ela conversa longamente sempre que está angustiada. “Morrer deve ser ir para muito longe” – pensa Elisa – “Embora, segundo a avó, seja o contrário. Morrer pode ser estar mais perto do que nunca.”
Essas “conversas” com Raúl têm uma só voz (a de Graciela) e aparecem em linguagem epistolar, como se ela enviasse cartas ao marido morto, comentando assuntos do cotidiano – não como quem conta algo para quem está alheio, mas sim como quem troca impressões com alguém onisciente, que vive por perto acompanhando tudo.
E o morto, que tem o privilégio de ver tudo em perspectiva, reage. Eis o toque de realismo mágico que não poderia faltar num romance como este:
“Ele achava que morrer era tornar-se ruína. (...) Ele, morto, é amuleto no pescoço de uma filha em trânsito migratório. Graciela, viva, é fuligem de uma casa desenganada. O país, promessa zumbi, é um colapso escorado com slogans de outras eras. A ruína, teimosa, ainda que o negue, sempre sabe o que ela é. Somos seus espectadores, as pessoas que, frente a ela, curvam as cabeças e respiram fundo, espantados por uma perda que não sabemos nomear. Somos os transeuntes da nostalgia, os artesãos da lástima, aqueles que se perguntam quando e por que algo – ou alguém – deixou de ser o que era para se tornar uma ruína.”
Camilo, pai de Elisa, nunca se conformou com o fim do relacionamento com Nina. Eles se conheceram n’A Luta e militavam lado a lado em nome de um sonho em comum, uma utopia que nunca se realizou. Quando descobre que Nina está no Brasil, Camilo vê uma oportunidade de chantagear a ex-companheira. “Nina é tudo o que você ama e tudo de que você foge”, dispara o narrador impiedoso, revelando em seguida o que Camilo pensa de verdade sobre Nina: “Ela era uma mal-agradecida, uma egoísta: duas características que não combinavam com revoluções nem com casamentos”.
“só falta você, o que você nos diz?, esse nós parecia pisar em cima da pedra que Nina tinha na boca do estômago, passa o telefone para Elisa, Camilo, eu preciso falar com ela, mas essa era uma necessidade que não seria saciada, porque não, Nina. você não vai ver nem ouvir Elisa até você estar aqui, e se quiser brigar e fazer escândalo, pode fazer, você sabe bem que vai dar na mesma, ele disse, com enorme certeza da impunidade, pensa numa data e me diz, uma prepotência que vinha de berço e de carreira, a gente está te esperando, um autoritarismo já tão natural, e vê se não demora muito, vai que a gente cansa, uma réplica íntima do estilo nacional.”
Desde que romperam, Camilo não quis saber de Elisa. Agora, usava a própria filha para chantagear Nina: “Ele a estava punindo por renunciar, por não se conformar com o estoicismo que era aquilo de morrer lutando uma luta que não era mais sua”, afinal “Elisa só foi possível porque A Luta existiu”, insistia Camilo. Para Nina, “A Luta estava escrita em uma letra maiúscula pesada, antiga, masculina e férrea” e, por isso, a abandonara, da mesma forma que largara Camilo.
É nesse núcleo que a história ganha tração e eu vou parar por aqui com os spoilers, que envolvem diversos fluxos migratórios inesperados, outras famílias e fortes emoções.