Entrevista com Ubiracir Fernandes, conselheiro do Conselho Federal de Química (CFQ) e um dos maiores especialistas sobre a cadeia produtiva da Cannabis Medicinal no Brasil
Ainda cercada de alguns preconceitos, é inegável que a pesquisa, a produção e o uso medicinal da Cannabis crescem a cada ano no Brasil. Esse crescimento ficou demonstrado durante o 5º Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal aconteceu entre os dias 21 e 23 de maio em São Paulo (SP). No local, estiveram mais de sete mil pessoas, entre especialistas, pesquisadores, profissionais da saúde, representantes do setor produtivo e autoridades públicas, para discutir os avanços científicos, regulatórios e econômicos relacionados à cannabis medicinal no Brasil.
A expectativa é que o setor avance ainda mais com a possível aprovação do Projeto de Lei 399/2015, que tramita no Congresso Nacional com o objetivo de regulamentar o cultivo da Cannabis Sativa para fins medicinais e industriais, e que propõe regras mais claras para pesquisa, produção, comercialização e uso medicinal da cannabis no Brasil, ampliando a segurança jurídica para profissionais da saúde, pacientes e investidores.
Atualmente o mercado de cannabis medicinal no Brasil se consolida, combinandon avanço regulatório e crescimento econômico: em 2025, o setor movimentou R$ 971 milhões, segundo levantamento da Kaya Mind, o que representa alta de 38,5% em relação ao ano anterior. Ainda de acordo com a Kaya Mind, o Brasil encerrou 2025 com cerca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis medicinal.
Atualmente o mercado de cannabis medicinal no Brasil se consolida, combinando avanço regulatório e crescimento econômico: em 2025, o setor movimentou R$ 971 milhões, segundo levantamento da Kaya Mind, o que representa alta de 38,5% em relação ao ano anterior. Ainda de acordo com a Kaya Mind, o Brasil encerrou 2025 com cerca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis medicinal.
Na entrevista abaixo, Ubiracir nos fala sobre os avanços da pesquisa e dos usos comprovados dessa erva natural que muitas vezes ainda se vê cercada de preconceitos e de muito desconhecimento.
Conselheiro do Conselho Federal de Química (CFQ), Ubiracir Fernandes é uma das principais autoridades sobre a pesquisa e o desenvolvimento da Cannabis Medicinal no Brasil. Fez parte do comitê científico do 5º Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, que aconteceu em São Paulo/SP entre os dias 21 e 23 de maio deste ano. É Químico Industrial, Mestre em Química Orgânica e produtos naturais e Doutor em Vigilância Sanitária, com pós-doc em Tecnologia de Formulações. Ele fez parte de setores de desenvolvimento analítico de indústrias farmacêuticas, foi coordenador de Química Farmacêutica e membro da Comissão de Saneantes do CRQ-IV, e servidor da Anvisa justamente na gerência de saneantes.
Luís Augusto Fischer – Ao falar em "cannabis", para fins medicinais agora comprovados, ainda se enfrenta preconceito na opinião pública? Que setores ou classes sociais são mais resistentes?
Ubiracir Fernandes – Olha, o debate sobre cannabis medicinal no Brasil já avançou significativamente do campo ideológico para o campo científico, regulatório e terapêutico. Entretanto, sim, parte da opinião pública mantém resistência ao tema, principalmente pela associação histórica da planta ao uso recreativo e a atividades ilícitas.
O preconceito tende a ser maior em segmentos com menor acesso à informação técnico-científica ou pouco contato com evidências clínicas e regulatórias mais recentes. Alguns representantes de setores mais conservadores, ainda demonstram dificuldade em diferenciar medicamentos à base de cannabis de pautas relacionadas à legalização de drogas.
Por outro lado, esse cenário vem mudando rapidamente com o aumento de publicações científicas, decisões judiciais, regulamentações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e, principalmente, com o crescimento do número de pacientes que relatam melhora real na qualidade de vida. A participação crescente de médicos, farmacêuticos e químicos, universidades e conselhos profissionais, como o Sistema CFQ/CRQs, em debates públicos também tem contribuído para reduzir estigmas e substituir opiniões baseadas em preconceito por discussões fundamentadas em ciência, segurança e qualidade terapêutica.
LAF – No Congresso realizado há pouco, houve alguma novidade nesse campo da aceitação, ou no enfrentamento às resistências?
UF – O Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal 2026 evidenciou um amadurecimento importante do debate no Brasil, principalmente pela presença cada vez maior de representantes da indústria farmacêutica, universidades, associações de pacientes, profissionais da saúde, órgãos reguladores e setores ligados à inovação tecnológica.
Um dos pontos mais relevantes foi justamente a mudança de abordagem: a cannabis deixou de ser discutida apenas como um tema alternativo ou experimental e passou a ser tratada dentro de uma lógica mais próxima do desenvolvimento químico-farmacêutico tradicional, envolvendo qualidade, rastreabilidade, padronização química e evidências farmacológicas/clínicas.
Também chamou atenção o aumento das discussões sobre regulamentação e desenvolvimento industrial nacional. Esses temas ajudam, e muito, a reduzir resistências por aproximarem a cannabis medicinal de conceitos já consolidados no setor químico-farmacêutico.
Outro aspecto importante foi a participação crescente de conselhos profissionais e entidades científicas, promovendo debates técnicos multidisciplinares e contribuindo para combater desinformação. Além disso, muitos relatos de pacientes e profissionais continuaram um ponto decisivo para a aceitação pública, quando a discussão passa a envolver melhora concreta da qualidade de vida, o preconceito tende a perder espaço para uma visão mais humanizada e baseada em evidências.
LAF – Que usos medicinais de derivados da cannabis podem ser considerados agora sólidos e indiscutíveis?
UF – Inicialmente, é importante reconhecer aplicações da cannabis medicinal que já possuem reconhecimento regulatório formal, daquelas que apresentam evidências clínicas promissoras, mas em consolidação.
Do ponto de vista da Vigilância Sanitária, usos considerados efetivamente sólidos são aqueles que deram origem ao registro sanitário como categoria de medicamentos, após avaliação completa de segurança e eficácia farmacológica, por meio de estudos clínicos controlados por agências reguladoras.
Nesse grupo destacam-se principalmente medicamentos à base de canabidiol purificado para epilepsias refratárias específicas, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, além de formulações padronizadas contendo THC e CBD para espasticidade associada à esclerose múltipla.
Em paralelo, existe um conjunto crescente de estudos clínicos e observacionais com resultados promissores em dor neuropática, ansiedade, distúrbios do sono, transtorno do espectro autista (TEA), fibromialgia e cuidados paliativos oncológicos, mas que ainda demandam consolidação regulatória. Um ponto fundamental nesse processo é que, para o desenvolvimento de estudos clínicos sanitariamente reconhecidos, é necessário padronizar diferente parâmetros e associá-los às respostas terapêuticas observadas.
O produto investigado precisa apresentar composição química definida, reprodutibilidade, perfil de impurezas, estabilidade e controle de qualidade adequadamente caracterizados no Dossiê de Desenvolvimento Clínico de Medicamento (DDCM), documento exigido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para autorização de estudos clínicos. Isso significa que a evolução da cannabis medicinal passa necessariamente pela transição de extratos genericamente caracterizados para produtos farmacêuticos com composição química padronizada e rastreável, compatíveis com os critérios técnicos exigidos para futuros registros sanitários.
LAF – Que novidades apareceram no debate atual, em termos de aplicação médica de compostos a partir da cannabis?
UF – O debate atual sobre cannabis medicinal continua avançando para além do uso do CBD isolado, passando a explorar ainda mais combinações mais complexas de canabinoides, terpenos e flavonoides, com foco em respostas terapêuticas mais específicas/direcionadas quimicamente, e previsíveis. Um dos temas mais discutidos recentemente é justamente a importância da padronização química dos extratos, buscando composições definidas e reprodutíveis que permitam desenvolver posologias mais direcionadas e com maior segurança clínica.
Também cresce o interesse por substâncias considerados “minor cannabinoids”, como CBG, CBN e CBC, que começam a ser investigados para aplicações em dor, inflamação, neuroproteção, sono e saúde mental.
Outra novidade importante é o avanço das pesquisas sobre medicina personalizada, utilizando perfis químicos mais detalhados, inclusive abordagens de cannabinômica e metabolômica, para correlacionar quimiotipos específicos a determinadas condições clínicas. Isso tem aproximado cada vez mais a cannabis de uma plataforma farmacêutica avançada, e não apenas de um produto vegetal tradicional.
Textos produzidos pelo Conselho Federal de Química durante o 5º Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal:
Primeiro dia: https://cfq.org.br/noticia/cfq-participa-do-congresso-brasileiro-de-cannabis-medicinal/
Segundo dia: https://cfq.org.br/noticia/congresso-brasileiro-de-cannabis-medicinal-cfq-destaca-papel-da-quimica-e-da-regulacao/
Terceiro dia: https://cfq.org.br/noticia/cfq-reforca-protagonismo-no-maior-congresso-de-cannabis-medicinal-do-pais/