Confira todos os textos da edição #329
- Porto Alegre, 1915 – A morte de Pinheiro Machado, por Arnoldo Doberstein
- Muito antes de Trump: a trama milenar entre Armênia e Irã – parte 3, por Daniel Scandolara
- A arte negra na Bienal de Veneza ou o tapete de minha avó, por Samantha Buglione
- O Rock Gaúcho – Parte X, por Arthur de Faria
- Ubiracir Fernandes: “A cannabis deixou de ser um tema alternativo ou experimental", por Luís Augusto Fischer
- Cássio Dalpiaz: “Para cada um dos 365 dias, uma instrução de voo”, por Luís Augusto Fischer
- O que aprendi com Leonardo, por Alfredo Fedrizzi
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 8, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu - Capítulo IX, por Marlon Pires Ramos
- Os Guarani e o Pampa, por Artur H. Franco Barcelos
- Quatro palavras sobre Pedro Ortaça, por Demétrio Xavier
Um livro que é um diário, mas organizado com o palavreado de um diário de bordo de avião, para servir de roteiro para o leitor interessado em – em quê, mesmo? Em espiritualidade, em exercer sua fé católica, mas também em ligar fé e leituras. Literárias. Este é o livro que o padre Cássio Dalpiaz publica agora, Deus no comando – O voo nosso de cada dia, pela editora Citadel. Eu o conheci nos corredores e salas de aula do curso de Letras na UFRGS, onde cruzamos algumas vezes, vários anos atrás. E agora o revejo por escrito. Que tal?
Cássio Dalpiaz é padre católico e doutorando em Literatura Comparada (UnB/UCP - Lisboa). Licenciado em Letras (UFRGS) e Filosofia (FASEM) e Bacharel em Teologia pela Lateranense, estuda as interseções entre fé e literatura. É docente de Literatura nos Centros de Estudos Teológicos em Brasília e coordena o projeto de Letramento Literário Uma Jornada Literária Inesperada.
Luís Augusto Fischer – Primeiro de tudo, conta de onde veio a ideia de organizar esse diário, com material para cada um de 365 dias, com linguagem de aviação, como instruções da torre ao piloto, etc. Tu tens alguma formação na área?
Cássio Dalpiaz – A ideia deste diário é o resultado de uma síntese entre os meus sonhos de infância e uma experiência vital profunda. Quando criança, eu oscilava entre querer ser astronauta, piloto ou padre. Hoje, como padre, professor e pesquisador, entendo que essas vocações se unificaram: sinto-me um piloto aberto à missão, navegando pelos ‘lugares’ do saber e da alma.
No entanto, a linguagem da aviação ganhou raízes reais em 2001, quando precisei passar por uma cirurgia cerebral delicada. Naquele momento, meus amigos revezavam-se no hospital para cuidar de mim e dar suporte à minha família. Eles criaram um caderno de anotações – um verdadeiro protocolo de cuidados – para que todos soubessem os procedimentos e o meu andamento. Como eu dormia muito devido à recuperação, eles, nos períodos que estavam comigo, escreviam naquele caderno como se fosse um diário de bordo, relatando nossa vida compartilhada e os sentimentos daquele momento. Ali, o que era um registro clínico tornou-se um relato profundo, por vezes engraçado e sempre muito belo.