Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

Muito antes de Trump: a trama milenar entre Armênia e Irã – parte 3

Parêntese #329

Da trama de identidades nacionais e fronteiras de países, pincemos, por exemplo, partes da complexa geopolítica caucasiana. A República da Armênia compartilha fronteira com quatro países – Irã, Turquia, Azerbaijão e Geórgia. Nos últimos anos, sobretudo após a inação russa em relação à campanha genocida promovida pelo Azerbaijão aos armênios de Artsakh em 2023, muitas análises passaram a posicionar o Irã, com quem a Armênia partilha sua fronteira ao sul (especificamente a região de Syunik), como a principal barreira de contenção dos impulsos destrutivos da aliança Turquia-Azerbaijão, países de retórica fortemente aversiva à existência do elemento armênio. Passa por este diagnóstico, portanto, que muitos armênios, sensíveis a todo o passado genocida a seu povo propalado pelo Império Otomano, prefiram que, para a manutenção da existência de seu país, mais vale que o ‘‘regime dos aiatolás’’ permaneça como está. Noutras palavras, o Irã, não apenas por ser um parceiro diplomático e comercial harmônico, mas também por ter seus próprios motivos para não querer o aumento do poderio azeri[1], escala sua própria importância como o ‘‘realmente viável’’ aliado militar a uma Armênia em perigo.

Quem parece não partilhar da mesma preocupação é o atual primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, que tem promovido uma política externa de aproximação com os herdeiros dos históricos algozes de seu povo. Parte da ideia é, teoricamente, abrir as fronteiras fechadas que o país partilha com a Turquia e Azerbaijão, redinamizando as relações comerciais no Cáucaso, e reduzir a dependência da Rússia. Como fruto da política promovida por Pashinyan, a Armênia passou (e ainda passa) por intensos debates sobre a regularização de seus limites geográficos com o Azerbaijão, nos quais a oposição condena a cartilha do primeiro-ministro sobretudo em seu aspecto de concessão de territórios, historicamente armênios, a quem jamais se dará por satisfeito. A estes olhos, nada realmente indica que alguém como o ditador azeri Ilham Aliyev tenha qualquer compromisso com a palavra empenhada, muito pelo contrário – não se pode confiar no lobo enquanto se é ovelha, como debatia Raffi.