Confira todos os textos da edição #329
- Porto Alegre, 1915 – A morte de Pinheiro Machado, por Arnoldo Doberstein
- Muito antes de Trump: a trama milenar entre Armênia e Irã – parte 3, por Daniel Scandolara
- A arte negra na Bienal de Veneza ou o tapete de minha avó, por Samantha Buglione
- O Rock Gaúcho – Parte X, por Arthur de Faria
- Ubiracir Fernandes: “A cannabis deixou de ser um tema alternativo ou experimental", por Luís Augusto Fischer
- Cássio Dalpiaz: “Para cada um dos 365 dias, uma instrução de voo”, por Luís Augusto Fischer
- O que aprendi com Leonardo, por Alfredo Fedrizzi
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 8, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu - Capítulo IX, por Marlon Pires Ramos
- Os Guarani e o Pampa, por Artur H. Franco Barcelos
- Quatro palavras sobre Pedro Ortaça, por Demétrio Xavier
There is a reason, after all, that some people wish to colonize the moon,and others dance before it as an ancient friend. — James Baldwin, 1972
Em todo começo há palavras, disse Koyo Kouoh: “… as palavras são pontes para o outro, revelação de si (e quando) suspensas no ar, deslocando-se das línguas aos ouvidos ao sabor dos ventos, as palavras que penetram o solo como fertilizante clandestino, os seus sons, ritmos e melodias perfumando o ar…” criam e recriam mundos.
Inclusive aquelas que não nasceram para nomear povos são capazes de comportar (para o bem e para o mal) mundos inteiros dentro delas. Às vezes como uma espécie de uníssono em uma abertura estável e sem dissonância, tal qual uma marcha militar que silencia tudo à volta, mas também fala. Em outras, torna-se o território do possível, lugar para se poder existir, cuja posse com o tempo recriará sentidos. Neste parágrafo há três ideias que gostava de compartilhar a fim de pensar arte, negra, africana ou latina, ou apenas para falar do tapete de minha avó. A primeira é sobre a palavra herdada, a segunda sobre ressignficá-la e a terceira é o perigo.
Das palavras, Bantu, por exemplo, era apenas um modo simples de dizer "humanos” em muitas línguas da África Central e Austral, e Muntu “pessoa”. Há implicações práticas em demarcar diferença aqui, tanto quanto os sentidos próximos, mas diversos, da bios e zoe gregos. O diabo mora nos detalhes, diria minha avó. Mas Bantu e Muntu eram apenas palavras na boca de diferentes povos até que, no século XIX, o linguista alemão Wilhelm Bleek decidiu transformar o signo-palavra bantu numa categoria de organização de centenas de línguas africanas aparentadas (segundo ele) e de pessoas. No apartheid da África do Sul, os negros eram os bantus (cujo uso foi condenado posteriormente) ao lado dos coloreds e brancos.