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Sonhos de trem, o filme

No tom certo sobre grandes perdas

Sonhos de trem, o filme
Imagem: Reprodução

O cinema está na moda. O Brasil até briga por filmes. Bolsonaristas e antibolsonaristas engalfinham-se pelo Agente secreto, de Kleber Mendonça Filho. Custei a perceber que, como se diz agora, era sobre polarização ideológica, não sobre cinema, parte da confusão armada com o ótimo longa gravado em território nacional.

Uma parte de nós, brasileiros, adora uma copa do mundo. Se a gente ganha, fica bom demais. O tênis já foi nosso esporte favorito, com Guga, e anda voltando com João Fonseca. A Fórmula 1 já foi nosso jardim particular com Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna.

Depois, ainda tivemos algum destaque com Felipe Massa e, por fim, desaparecemos do pódio. Aí perdemos o interesse pelas corridas.

Até a Rede Globo largou o pedaço. Vai retomar agora. Difícil será emplacar um piloto capaz de ganhar de novo.

O futebol sempre foi o nosso favorito na produção de orgulho. Depois do 7 a 1 contra a Alemanha ficamos sem pai nem mãe, ao relento. Os últimos anos foram tão duros que agora um técnico italiano é responsável pela seleção brasileira.

O assunto, porém, é cinema. O filme que mais me pegou nos últimos tempos, além de O Desprezo, de Jean-Luc Godard – que revi depois da morte de Brigitte Bardot –, foi Sonhos de trem, de Clint Bentley. Vi na Netflix antes do futebol.

O ator principal, Joel Edgerton, concorria com Wagner Moura no Globo de Ouro. É a história de um lenhador que não conheceu os pais, trabalha duro na floresta onde vive e perde mulher e filha, seus maiores tesouros.

Nada parece acontecer boa parte do tempo no filme. Estranhamente nos sentimos muito ocupados com o cotidiano daquele homem solitário.

Baita atuação de Edgerton, o que só valoriza o prêmio de Moura.

Creio que todos temos um pouco dessa fixação pelo cotidiano dos outros. Como administrar a vida após uma grande perda? Não a vida cheia de acontecimentos, viagens, compromissos, reviravoltas, mas a existência mais realista, a do dia a dia: comer, dormir, trabalhar, seguir.

Observo que especialistas em cinema gostam de aspectos técnicos como planos, enquadramentos e outros elementos da técnica de filmar. Eu me interesso mesmo é pelas histórias. O mesmo me acontece em literatura. Tudo o que espero é que a maneira de contar não atrapalhe a história.

Nos livros de Michel Houellebecq a técnica de narrar está sempre a serviço do que ele conta. O autor dissolve-se por trás do que conta. Parece, às vezes, que a história se narra suavemente por ela mesma.

Sonhos de trem é triste, mas não mórbido; melancólico, não sombrio; humano, tão humano quanto pode ser um filme que trata de grandes perdas, dessas perdas irreparáveis.

Tem algo de crônica, de conto, de um modo narrativo sem grandiloquência nem desfecho. Poderia até se chamar Vida que segue.

A vida segue, claro, com outro ritmo, outra pegada, aparentemente sem propósito, salvo o de viver. Somos movidos por um vitalismo poderoso. Apesar de tudo, em geral, queremos viver. Há esperança em algum lugar.

Se estiver de bobeira, no ar-condicionado, leitor, vai lá, assiste Sonhos de trem e depois me diz se não estou coberto de razão.

É sobre viver.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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