Confira todos os textos da edição #349
- Independência ou morte do jornalismo, por Marcia Benetti
- Meu caro amigo indeciso, por Eduardo Rihan Cypel
- A morte da verdade, por Vera Chaves Barcellos
- Mendelssohn na Parada Gay (o oposto de agora), por Rafael Kasper
- Aula sobre Mario Quintana, por Juremir Machado da Silva
- Sair de cena, discretamente, por Gilberto Perin
- A dama da Duque – Capítulo IX, por José Roberto Iglesias
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 18 – Parte III, por Gonçalo Ferraz
- Namorar, jogar bola e fazer poesia, Luís Augusto Fischer entrevista Ricardo Silvestrin
No dia 14 de outubro, uma bomba explodiu no colo do jornalismo brasileiro. Mensagens de Whatsapp reveladas pela Polícia Federal mostraram a relação imoral do banqueiro Daniel Vorcaro com o Grupo Globo, o Metrópoles e outros veículos.
As conversas entre Vorcaro e o diretor-geral de impresso e rádio da Globo, Fred Kachar, misturam verbas de patrocínio, pautas jornalísticas e festas com garotas de programa. O nível das conversas sobre mulheres é baixíssimo. Kachar – que comandava as operações dos jornais O Globo, Extra e Valor, das revistas, da editora e de todo o sistema de rádio – negociava com Vorcaro o patrocínio de eventos da Globo. O banqueiro derramava dinheiro. Uma conversa mostra que, de 2023 a 2025, suas empresas bancaram R$ 10 milhões em dois eventos da Globo: o baile da revista Vogue e o camarote do carnaval na Sapucaí. Em troca, Vorcaro pautava reportagens de seu interesse. Algumas frases de Kachar: “quer que eu peça pra corrigir?”, “para não te deixar na mão, te bonifico um branded content [publicidade que parece matéria jornalística] da marca na Glamour e na Vogue”, “depois me diz se faltou algo”.
No dia seguinte a essas revelações, a Globo demitiu o executivo e divulgou uma nota oficial patética, assinada por João Roberto Marinho. “Comunicamos hoje o desligamento de Frederic Kachar da direção-geral de Mídia Impressa e Rádio. Ontem, tivemos acesso ao conteúdo de conversas privadas mantidas com Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e julho de 2025 que revelaram uma relação inadequada do executivo com um anunciante da Editora Globo”. Vejam, as conversas são “privadas”, a relação é “inadequada” e Vorcaro é apenas “um anunciante”. Em uma única frase, a Globo consegue ofender a inteligência do país inteiro.
O cinismo de Marinho continua: “Reforço aqui o nosso compromisso com a ética e a transparência e, sobretudo, reafirmo a absoluta independência editorial do jornalismo de nossos veículos, premissa essencial de nossa atuação”. Por que ele cita ética, transparência e independência editorial, tudo que faltou à empresa? Porque a família Marinho sabe que a independência é o valor central que sustenta a credibilidade do jornalismo, sabe que é o mínimo que os leitores esperam.
O caso Metrópoles consegue ser ainda pior que o da Globo. Criado em 2015 pelo ex-senador Luiz Estevão, o Grupo Metrópoles de Comunicação funcionava como um braço de Vorcaro. Estevão é aquele amigo de Fernando Collor e dono do Grupo OK. Em 2006, ele foi condenado a 31 anos de prisão por corrupção ativa e desvio de R$ 169 milhões de verbas públicas, no famoso escândalo do TRT de São Paulo. Depois de uma década de recursos, durante a qual tocou seus negócios, finalmente foi preso em 2016. Em 2020, na pandemia de Covid, passou à prisão domiciliar por ter mais de 70 anos. Em 2022, recebeu indulto do então presidente, Jair Bolsonaro. Em resumo: de 31 anos, cumpriu apenas quatro na prisão e hoje está livre. Parece que em alguns casos o crime compensa, sim. Sua fortuna é estimada em R$ 30 bilhões, mas suas empresas devem à União cerca de R$ 8 bilhões em impostos e direitos previdenciários. Assim é a nata da sociedade brasileira, crème de la crème.
Pois bem. As mensagens divulgadas mostram a diretora executiva do Metrópoles, Lilian Tahan, trabalhando como estagiária de Vorcaro. O banqueiro brincava de jornalista: editava textos, mudava títulos, escolhia fontes, acrescentava boatos e decidia quando publicar uma matéria. Essa relação espúria começou em 2024, quando o banco Master fechou um contrato de R$ 20 milhões em patrocínio para o site. A diretora de marketing do Master, Ana Matos, estranhou o valor e disse a Vorcaro: “tá caro esse Metrópoles”. Ela sugeriu pagar R$ 15 milhões, e ele respondeu: “Não! Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”. Ele tinha razão: uma diretora de um jornal que pergunta a um banqueiro se uma pauta lhe “ajuda ou atrapalha” deve valer muitos milhões.
Enquanto a Globo tentou uma resposta meio envergonhada, o Metrópoles bancou. “Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”, disse Tahan. O nível de desfaçatez é impressionante. Ela ainda minimizou seu comportamento dizendo que cedeu “a pedidos razoáveis no contexto da relação entre fonte e veículo, com alterações irrelevantes em 11 textos”. Só para esclarecer quem não é da área: um jornalista não pode submeter a íntegra de um texto a uma fonte, nem permitir que ela edite a matéria, ou modifique o título, ou sugira outras fontes, ou decida quando a matéria deve sair. Voltamos a contatar uma fonte para verificar se compreendemos corretamente sua declaração ou para fazer uma nova pergunta, e é isso. Um jornalista nunca pergunta a uma fonte se uma pauta “ajuda ou atrapalha” seus negócios. Nada disso é “razoável”, e é ainda mais grave porque Vorcaro era um super anunciante, um banqueiro envolvido em negócios obscuros e com livre trânsito entre políticos, investidores e membros do Judiciário – como o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o bolsonarista Kassio Nunes Marques, presenteado com garotas de programa no apartamento de Vorcaro.
O poder de Vorcaro alcançou outros veículos, como IstoÉ, Platô BR, Brazil Journal e até o Diário do Centro do Mundo e a Carta Capital, ambos considerados de esquerda. As conversas envolvem profissionais como Gabriela Prioli, Léo Dias e Diego Escosteguy (este, um velho serviçal da direita). É um lamaçal que coloca tudo em dúvida: afinal, ainda dá para confiar no jornalismo?
O jornalismo moderno se consolidou a partir do valor da independência. Mas independência em relação a quê? Em relação a partidos políticos, a interesses de grupos privados que ameacem o bem comum e aos anunciantes. Quando a reportagem se consolida como o eixo do jornalismo e surgem as redações profissionais, no início do século XX, ocorre uma separação entre os jornalistas e o setor comercial. Essa separação era inclusive física, e os jornalistas eram protegidos de interferência. É claro que isso não garantia plena autonomia, mas pelo menos constrangia as matérias “encomendadas” a seguirem critérios jornalísticos.
Nos grandes veículos brasileiros, isso praticamente não existe mais. Todos criaram agências de produção de conteúdo de marca: RBS Brand Studio, Estadão Blue Studio, Estúdio Folha, G.Lab. Essas agências reúnem jornalistas, publicitários, designers e assessores de marketing. Tudo está à venda: espaços nas colunas, nas newsletters, reportagens pagas, podcasts, programas de rádio. Publicamente, essas grandes empresas dizem que são independentes, imparciais e transparentes, pois sempre indicariam ao leitor quando se trata de branded content. Não é verdade. Nesses grandes veículos, o setor de marketing passou a comandar grande parte do jornalismo, decidindo pautas e enquadramentos. Já escrevi sobre esse movimento suicida e autofágico no artigo “A diluição do jornalismo na publicidade”, publicado na revista Intexto.
A publicidade é uma fonte de recursos legítima, que pode inclusive garantir a autonomia editorial ao livrar o veículo da dependência de propaganda estatal. Mas, quando uma colunista de economia de um grande jornal é patrocinada pela Marcopolo, por exemplo, como podemos acreditar que as pautas sobre ações dessa empresa são orientadas pelo interesse do leitor? Quais são os limites que separam o jornalista, o anunciante e a assessoria desse anunciante? Essas fronteiras estão borradas, e quem perde é o leitor.
A independência em relação a partidos políticos também não existe nos grandes veículos. Como esses jornais viraram conglomerados com diversos negócios – bancos, financeiras, construtoras –, há muitos interesses envolvidos. Se um prefeito “flexibiliza” a lei ambiental para favorecer grandes construtoras, e o jornal é dono de uma empreiteira, é evidente que o jornalismo não vai fiscalizar as ações desse prefeito. Basta ver como a mídia tradicional cobriu a discussão do plano diretor de Porto Alegre: não cobriu.
Quando os bastidores do jornalismo são escancarados, como aconteceu agora, e vemos que a independência editorial é rifada em nome dos negócios e do poder político, sentimos vergonha e desalento. Mas devemos lembrar que o bom jornalismo é insubstituível. E onde está o bom jornalismo? Procure quem faz reportagem, quem traz pautas novas, quem investiga. Em 1940, Robert Park definiu o surgimento do repórter como “um dos mais importantes eventos da civilização americana”. Ele estava certíssimo. É no jornalismo que faz reportagem que ainda podemos confiar.