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Hamnet, o filho de Shakespeare

Filme de Chloé Zhao é um dos favoritos para ganhar o Oscar

Hamnet, o filho de Shakespeare
Foto: Reprodução / Focus Features

Sem querer ser estraga-prazeres nem antinacionalista, as chances de O Agente Secreto ganhar o Oscar de melhor filme na categoria geral são pequenas. Acontece que Hamnet, da chinesa Chloé Zhao, é um baita filme, uma obra-prima. Se o brasileiro ganhar vai ser, de fato, um acontecimento.

Pouco se sabe sobre a vida de William Shakespeare. Edgar Morin, em “A contribuição dos pós-marranos à cultura humanista europeia e mundial”, capítulo de Só um instante (Sulina, 2025), explora a hipótese do pesquisador Lamberto Tassinari de que as peças do “bardo” poderiam ter sido escritas por um nobre culto, rico e talentoso chamado John de Florio.

O filme de Zhao é mais sobre a mulher de Shakespeare e sobre seu filho Hamnet, que morreu aos onze anos de idade de causas desconhecidas. Sabe-se que Shakespeare casou-se aos 18 anos com Anne Hathaway, de 26 anos. Ele precisava de espaço, de oportunidades e de um lugar adequado para ver seu talento de dramaturgo explodir. A mulher estimulou-o a ir para Londres. Quando o filho morreu, Will estava fora. Ela vai culpá-lo.

Eis tudo o que conta. Trata-se de um filme sobre a dor das grandes perdas. Como assimilar? Como realizar o luto? O que fazer com a permanente presença de alguém que nunca mais voltará? Como viver isso no dia a dia? Como diz Shakespeare no filme, o filho não pode ter sumido assim.

Os atores Paul Mescal e Jessie Buckey estão soberbos. Ela já abocanhou o Globo de Ouro, o Astra Awards, o Critics' Choice Movie Awards e tem tudo para levar o Oscar. O filme ganhou nota 88 sobre 100 numa plataforma que trabalha com 11 critérios de qualidade. É peso qualificado.

Shakespeare teria feito o luto de Hamnet escrevendo Hamlet, nomes que eram tidos como idênticos na época, certamente a sua peça mais famosa, que a mulher teria contato pela primeira vez como espectadora de um trabalho do marido. Só a grande arte poderia processar a dor como um remédio eficaz.

Reli Hamlet pela enésima vez. Parecia tudo novo. Pensei em Donald Trump como Fortimbrás querendo invadir a Dinamarca. Qualquer um sabe que há muito de podre do no reino dos Estados Unidos da América e que Trump é um “miserável que não vale a vigésima parte” do seu predecessor, que já não era um marco de grandeza. Mas esse é outro assunto. A grandiosa frase feita para aplacar a dor da mãe pelo filho perdido é dita pela rainha: “Tudo aquilo que vive, deve morrer, da Natureza passando para a eternidade”.

A eternidade, porém, é tão grande que não cabe na lógica humana.

Um filme sobre as dores provocadas pela morte de quem se ama, ainda mais a morte que sai da suposta ordem natural da existência, e mexe com emoções universais. Como diz Hamlet, “mostra-me um homem que não seja escravo de suas paixões e eu o colocarei no centro de meu coração”.

Um filho de onze anos ainda não é escravo das suas paixões.

Tenho a impressão de que Hamnet larga na frente para o Oscar.

Se perder, será uma enorme injustiça?

Não posso afirmar por uma só razão: não vi todos os concorrentes.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

 

Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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