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A medida das coisas humanas: Capítulo VII

Parêntese #317

A medida das coisas humanas: Capítulo VII
Imagem: Reprodução

Pergunto à Tati se ela sabe a diferença entre ato de fé e auto-de-fé. “Nem morta”, ela diz, se olhando no espelho da academia. Não entende nem de uma coisa nem de outra e parece mais preocupada com seus músculos. Mesmo assim explico: auto de fé tratava de uma cerimônia pública de trucidação dos hereges durante a Inquisição. Se fosse aqui em Porto Alegre, acho que seria na Esquina Democrática, com a Borges de Medeiros inteira testemunhando. Já ato de fé trata de uma demonstração íntima de crença religiosa. 

Tati dá de ombros. Na mesma proporção em que ganha massa, perde espiritualidade. Eu também pouco sirvo de exemplo, somos mulheres mundanas, mas à minha maneira faço, com críticas ou sem críticas, algo de cristão. O trabalho no presídio é só mais um entre vários. Houve uma fase em que adentrei praticamente no oposto. Fui organizar uma creche na periferia, em uma região dominada pelo tráfico de drogas. Uma única vez tive contato com eles. Dizer contato é meio exagero. Eu os vi. 

Conforme o combinado com a líder comunitária, na minha primeira ida, eu deveria parar o carro, não precisava desligar em determinado ponto, para que eles checassem a placa, me vissem e, ao modo deles, autorizassem minha passagem. Fiz tudo certinho. Parei, um deles, devagar, empurrou um lado do casaco, vi a arma como quem olha uma lata de lixo revirada, e aí eles me deram as costas. Talvez comentando a beleza de azul que o céu exibia naquela manhã. Eu havia reparado durante todo o percurso. De Paula Dreamer e My Way, Rodrigo me chamava. Eu gostava, me fazia rir e ouvir a voz do Sinatra.