Confira todos os textos da edição #317
- Susana, a casta, e Daniel, o profeta – Uma história mal contada, por José Roberto Iglesias
- Lei Rouanet: dados e contradições em tempos de enchente, por Álvaro Magalhães
- Histórias de Autógrafos: Ian McEwan em “Reparação”, por Carlos Gerbase
- O cotidiano que não pode ser visto a olho nu em O Agente Secreto, por Lisiane Leffa
- De almas mortas à família assassinada, por Juremir Machado da Silva
- 1909: A chegada de Giuseppe Gaudenzi a Porto Alegre, por Arnoldo Doberstein
- Cony 100 anos – O quase prêmio, por Marina Ruivo
- Reinaldo José Lopes: "Hoje a necessidade de atuar em diferentes linguagens é essencial", por Luís Augusto Fischer
- A medida das coisas humanas: Capítulo VII, por Helena Terra
Setenta anos atrás, surgia em nossa cena literária um escritor que, dali em diante, passaria a frequentar com assiduidade as páginas dos jornais e revistas, principal terreno onde acontecia a crítica. Seu nome era Carlos Heitor Cony e, apesar de sua timidez, ele não surgiu com discrição, senão que causando certo reboliço. O ventre, seu primeiro romance, chegou muito perto de ganhar um prêmio literário importante da época, mas bateu na trave, e não por razões propriamente literárias, atraindo assim o olhar para o novo escritor.

O prêmio em questão se chamava Manoel Antônio de Almeida e era promovido pela Prefeitura do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, em seus últimos anos como capital. O júri foi composto por intelectuais de renome, como o jornalista, cronista e ensaísta Austregésilo de Athayde, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o jornalista Celso Kelly, além do poeta Manuel Bandeira. Os jurados gostaram muito do romance inscrito sob o pseudônimo de Luís Capeto (nome pelo qual o rei Luís XVI foi condenado à morte durante a Revolução Francesa) e, se fosse para “levar em conta apenas o valor literário da obra julgada”, o teriam escolhido, como observaram na ata do resultado. Mas, “considerações relacionadas com o realismo, não apenas do enredo, como das palavras empregadas”, impediram que atribuíssem ao romance, “em nome da Secretaria da Educação e Cultura, a láurea consagradora”.
Cony, então com 30 anos, era funcionário da Câmara dos Vereadores do Rio e jornalista há cerca de dez anos. Estava começando a publicar textos assinados no Jornal do Brasil e, em julho daquele 1956, havia feito uma conferência sobre Charles Chaplin na sede da Sociedade Hebraica Brasileira, a qual deu origem a uma pequena publicação. Mesmo assim, era um desconhecido no meio cultural e, mais ainda, no meio literário. Mas estava convicto das qualidades de sua obra e se indignou com o que entendeu como uma falta de coragem da comissão julgadora. Por tal razão, insistiu. Não só na literatura, como no mesmo prêmio Manuel Antônio de Almeida.