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O cotidiano que não pode ser visto a olho nu em "O Agente Secreto"

Parêntese #317

O cotidiano que não pode ser visto a olho nu em "O Agente Secreto"
Imagem: Reprodução

Um calor escaldante e constante envolve um corpo caído no chão. Os cachorros se mostram interessados pelo corpo humano mais do que as autoridades habilitadas para cuidá-lo. Uma perna cabeluda e ambulante. Um tubarão abatido a cento e cinquenta metros da praia. Uma perna humana no interior do tubarão.  Um enigma em torno dos corpos. 

A coleção de imagens que dá contorno à introdução para a narrativa do filme O Agente Secreto encarna o excesso de um cotidiano que não pode ser visto a olho nu, embora se mostre obsceno na realidade. Em um primeiro tempo, as imagens estão expostas como presença bruta, e com o desenrolar da narrativa, elas se apresentam como um discurso cifrando as camadas de uma história. 

Ao forjar uma montagem que destaca partes de um todo, o filme aponta para um aspecto representativo do corpo - o enigma de sua fragmentação - em uma determinada época. Com essa perspectiva, entre outras nuances, e de maneira nada óbvia, através da ausência de uma imagem completa, podemos considerar que o filme nos conduz, entre outros destinos, para o efeito traumático do desaparecimento forçado de pessoas durante a ditadura civil-militar no Brasil.

O desaparecimento forçado de pessoas que foram contrárias ao regime ditatorial foi uma prática recorrente do poder de Estado vigente naquela época. Divulgado pelo Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade em 2025, o levantamento mais recente dessa pesquisa traz a constatação de que quatrocentas e trinta e quatro pessoas do território brasileiro permanecem desaparecidas após o fim do regime, tendo o ápice desse exercício ocorrido entre os anos de 1969 a 1978.

Além disso, segundo os dados publicados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, que foi instaurada no Brasil em 1995, aproximadamente 50 mil pessoas foram presas nos primeiros meses da ditadura e 10 mil viveram exiladas. Embora isso não seja uma novidade para quem nos lê hoje, o esforço de rememoração implica em nomearmos outra vez que, além desses dados, temos também a constatação de que 130 pessoas foram expulsas do Brasil, 4.862 pessoas tiveram seus mandatos e direitos políticos suspensos, cerca de 2 mil presos foram torturados, e centenas de camponeses foram assassinados. 

Hoje, sabemos que o desaparecimento forçado foi uma prática desenvolvida na década de 1960, na América Latina, concomitante à militarização dos Estados desta região. Caracterizado principalmente pela tentativa de completa submissão psicológica da comunidade como um todo, pelo estabelecimento de um clima de terror generalizado e pela impunidade total dos perpetradores que violavam as regras mais essenciais de direitos humanos, tal método de violação foi parte do mecanismo utilizado pela inteligência militar. 

Esse mecanismo foi instituído dispondo-se de uma organização de prática centralizada  e gerida pelo topo da estrutura hierárquica militar, através de operações ocultas, compostas por centros secretos de detenção, veículos, métodos de disfarce, armas, além de médicos e psiquiatras, agindo como cúmplices do regime. Desenvolveu-se, assim, uma campanha de manipulação psicológica, tendo em vista a imposição de sua aceitação social e a garantia de impunidade. 

O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e produzido por Emilie Lesclaux, nos ajuda a pensar sobre o desaparecimento dos opositores da ditadura civil-militar brasileira, em seu aspecto físico e subjetivo.

Imagem: Reprodução