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Se quiser entender a história do povo negro, é preciso atentar para as manifestações culturais negras

Uma Ouro Preto preta na Parêntese #311

Se quiser entender a história do povo negro, é preciso atentar para as manifestações culturais negras
Foto: Raphaela Flores

O sol bateu na cacunda, fez o negro chorar. Eu rezei pra São Benedito pro sol parar de queimar. Oh sol, pode parar de queimar.

A história do Brasil precisa ser contada e recontada. E precisa ser narrada a partir de uma pluralidade de vozes. 

Tive a sorte de conhecer Ouro Preto a partir da mediação de Eude Barbosa, que trabalha para fazer jus à memória dos ancestrais negros, evidenciando a humanidade, a cultura e os saberes africanos no período colonial escravista. Residente há 25 anos na cidade, ele é graduado em Geografia, pós-graduado em Patrimônio e passa a maior parte de seus dias subindo e descendo as ladeiras de pedras irregulares e conversando com pessoas das mais variadas origens. “Foi no turismo que me identifiquei, pois é a partir dele que posso falar de arte e da história do meu povo, que é a minha também", me contou o guia. 

Visão do mirante da Rua Getúlio Vargas, de onde se pode avistar a igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Foto: Raphaela Flores

Caminhamos juntos por um dia inteiro. Eude falou, cantou, me mostrou vídeos e materiais que ampliavam aquilo que se apresentava bem ali, na nossa frente. Um grande mestre, generoso em sua partilha, capaz de sensibilizar, despertar empatia, criticar e confrontar a história sem perder a alegria.

“A escravidão cria no povo preto uma consciência que é a consciência do branco, do dominador. E aí, no processo histórico, o negro se perdeu de si mesmo. A partir da descoberta da minha negritude, meu trabalho no turismo aborda um olhar afrocentrado, para que essa descoberta que eu fiz de mim mesmo tenha uma continuidade; e a cidade seja vista com outro olhar.”
 Teto da Igreja de São Francisco de Assis, pintada por Manuel da Costa Ataíde. Retrata a glorificação de Nossa Senhora, que aparece com traços de uma mulher negra. Foto: Raphaela Flores

Neste mesmo dia, conheci Liliane Mendes, outra guia que percorreu comigo a Mina do Bijoca e me ajudou a ser transportada para 300 anos atrás. No escuro daquelas galerias, de onde saiu o ouro que banhou Portugal por meio da exploração dos africanos, revivemos a memória da tenebrosa violência a que foram submetidos os escravizados – algo que não pode ser esquecido – e reverbera na alma daqueles que escolhem contar essas histórias, como Liliane: “A partir do momento em que eu piso naquela mina, acredito que sempre sou acompanhada pelos meus ancestrais e que eles sopram o que eu devo falar para as pessoas".

Entrada da Mina do Bijoca. Foto: Raphaela Flores

Ao longo do trajeto, Liliane apresentou a história e cantou vissungos, cânticos que eram entoados por escravizados, com letras que falam sobre dor e esperança. Uma dinâmica forte, que me atravessou o corpo inteiro ao ouvi-la cantar.

“Eu canto porque eles cantavam”, disse a guia. E de sua voz saiu um lamento.

Ó senhora do Rosário, tenha pena de nós, alembra. Alembra, pelo amor de deus, alembra de nós, alembra.

Lembrei muitas vezes da Kehinde, protagonista de Defeito de cor (Record, 2006), de Ana Maria Gonçalves. Era o livro materializado naquele dia. Liliane continuou: “Quando a gente se refere a eles, às pessoas escravizadas, a gente se refere a nós. Para mim, como uma mulher negra, é muito forte vivenciar isso, pois está na nossa corrente sanguínea, são nossos ancestrais.”

Três dias depois dessa experiência, seria dia de Congada em Ouro Preto. A atividade é o ponto alto da semana de reinado de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito. Eu já havia comprado passagens para Belo Horizonte, mas resolvi mudar os planos. Achei muita sincronicidade estar em Minas Gerais justamente no final de semana da tradicional festa religiosa, patrimônio cultural da cidade, que marca a abertura das demais celebrações de outros Congados. Nada seria mais importante que estar ali. 

O cortejo começou às 9h na Capela do Padre Faria. Uma a uma, as irmandades apresentaram suas identidades, com cânticos, figurinos, cores e fitas, danças, tambores e estandartes. Caminharam em direção à Matriz de Nossa Senhora da Conceição e depois retornaram ao ponto de origem.

A Congada mantém a cultura das celebrações de coroação de reis e rainhas do Congo. Em Minas Gerais, está ligada à lenda de Chico Rei, sobre um Rei do Congo escravizado no Brasil que depois se tornou liberto e adquiriu uma mina. “A Congada hoje representa esse dia de glorificar Nossa Senhora e apresentar para a sociedade a visão desse negro convertido, que traz no cortejo um pouco da sua identidade. É um dia em que se está vivendo a liberdade e a humanidade que a escravidão nos tirou", explicou Eude.

Através da música, é possível entender o que era o dia a dia dessas pessoas. 

O sol bateu na cacunda, fez o negro chorar. Eu rezei pra São Benedito pro sol parar de queimar. Oh sol, pode parar de queimar.

Depois de cantar, Eude contextualizou. “O negro convertido ao cristianismo aprende a adorar santos católicos. Ele entende que, na lógica cristã, se roga ao santo para que uma graça seja alcançada. É o que diz essa música.”

E complementou: “Eu posso olhar para o passado e ver a história de sofrimento imposto ao negro. Mas ver a festa do reinado é ver que essas pessoas cavaram a felicidade num lugar improvável. O problema da historiografia é tentar mostrar o negro só em lugar de sofrimento. Se você quiser saber quem somos, vá em manifestações negras e fique atento".

Lili e Eude, à esquerda, observam o cortejo. Foto: Raphaela Flores
Lili e Eude. Foto: Raphaela Flores

Serei eternamente grata a Lili e Eude pela experiência e pelos ensinamentos. Que mais gente os escute. Agradeço também a Ana Paula Cabral, da Casa Gunga, onde me hospedei. Foi por meio dela que cheguei a Eude. Tanto em Ouro Preto, quanto em Belo Horizonte, fui bem recebida pelas pessoas, muito  gentis, acolhedoras, alegres, e que gostam de conversar. 

Recomendo essa playlist com músicas de congada, indicada por Eude – se fores a Ouro Preto, fale com ele. Cultura é história, produção de significado e alegria. É o que mantém nossa humanidade.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Raphaela Donaduce Flores

Jornalista, criadora da Dona Flor Comunicação. Também é estudante de Escrita Criativa, na PUCRS. Publicou "Caminho das Águas, uma viagem de bicicleta pela costa oeste da Lagoa dos Patos", em coautoria com Eduardo Seidl.

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