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Ajudinha do PT aos golpistas

Senador petista negociou apoio à votação imediata da anistia light em troca de aprovação de medida que garante R$ 20 bilhões no orçamento

Ajudinha do PT aos golpistas
Senador Jaques Wagner (PT-BA) | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Tudo tem seu preço no grande circo do parlamento brasileiro.

A política é a arte de enganar militantes e depois lhes fornecer argumentos para enrolar os críticos. Manchete do UOL: “Acordo no Senado para dosimetria envolveu R$ 20 bi do Orçamento”. Mentira da mídia inimiga? O senador Jacques Wagner confessou: “Não me envergonho de nada. Estou muito tranquilo com aquilo que fiz e que acho que foi correto. Evidentemente alguns poderiam querer adiar este debate para depois do recesso, em fevereiro. Na minha opinião, não mudaria o resultado”. Santo pragmatismo.

No domingo a galera estava na rua em nomes dos princípios. O que Lula vai dizer a Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros? O que fez exatamente Wagner segundo a jornalista Letícia Casado: “O acordo costurado pelo líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA) e a oposição no Senado para votar o projeto da dosimetria, que reduz as penas dos condenados pelo 8 de janeiro e do ex-presidente Jair Bolsonaro, envolveu a votação de um projeto de interesse do governo que visa aumentar a arrecadação em mais de R$ 20 bilhões”. Toma lá, dá cá e vai todo mundo para o recesso de fim de ano.

Enquanto Renan Calheiros tentava empurrar a decisão para 2026, Wagner tricotava nos bastidores um acordão. Ele chegou a dizer que tinha falado com Lula antes de fechar a mumunha. Depois, recuou e matou no peito. Puro jogo de cena. Próximos passos: Lula veta em parte ou na totalidade o que foi aprovado. A militância ganha uma virgindade novinha em folha. O legislativo derruba o veto e fica tudo em casa. Todo mundo feliz e de consciência limpinha da silva. Wagner talvez saia do posto que ocupa no Senado em nome do governo e vá cuidar da sua horta na Bahia. O tempo passa, a massa esquece, o baile segue e os patos contemplam a lagoa sumir.

Wagner, o pragmático, considerou que o corte de benefícios fiscais e a elevação da tributação de bets e fintechs valiam a votação imediata de um alívio nas penas dos golpistas de Bolsonaro e alguns malabarismos jurídicos e legislativos para se fazer uma lei prêt-à-porter na baixa costuma das passarelas de Brasília. A lógica de Jacques Wagner tem tempero especial: se ia perder mesmo, entrega logo o ouro e fatura alguma coisa para comemorar.

E o povo? O povo briga no almoço de domingo pelos valores da pátria e pela ideologia das suas paixões. Num passe de mágica certos crimes graves viraram roubo de galinha, ou até menos, e punições pesadas caíram do andaime e se espatifaram no tapete verde graças à imensa bondade dos parceiros e à incrível capacidade de negociação de alguns adversários.

A sorte do PT é que parte da mídia gostou do resultado e que o PDT amanheceu enrolado com a farra da Previdência. Nada como a dispersão de fico para espantar uma crise de coerência. Nas redes sociais, militantes raiz resmungam, rosnam e atacam o MDB, que foi dormir contra a lei da dosimetria e acordou a favor. Deve ter sido influência de algum sonho.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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