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Brasil visto de longe

Repercussões na França da prisão de Jair Bolsonaro

Brasil visto de longe
Paris comenta prisão de Jair Bolsonaro | Foto: Ana Cláudia Rodrigues

De longe, como se poderia dizer, ninguém é normal. O Brasil parece meio esquisito para estrangeiros. Franceses, em geral, curtem nosso exotismo. Ainda não vencemos totalmente essa barreira. Nossas esquisitices vendem bem, mas por valores não muito altos. Encontrei um etíope. Ele dirige Uber e tem um restaurante etíope em Paris. Gosta de papo e admira o futebol brasileiro da época dos Ronaldinhos. Não vê muito futuro na seleção atual mesmo gostando de Vinicius Júnior, de Rodrigo e de outros que não cita.

– O que Bolsonaro fez? – pergunta.

Respondo que foi condenado por tentativa de golpe de Estado. O homem fica perplexo. Não consegue acreditar no que está ouvindo. Gagueja.

– Ainda? Em 2025? No Brasil? Que loucura é essa? O Brasil é um país grande, uma potência. Isso é muito comum na África – explica.

Embalado, fala sobre a sua Etiópia natal, para a qual pretende voltar um dia, aposentado. Conta que o país está dividido por etnias e que o conceito de democracia não se encontra enraizado na vida das pessoas.

Volta a me questionar sobre o Brasil. Quer saber se militares deram apoio a Bolsonaro na tentativa de golpe de Estado. Vibra quando digo que foram condenados e irão para a cadeia. Faz uma espécie de profissão de fé na democracia. Na sua visão prática, só a liberdade abre caminhos.

Fiquei pensando sobre suas premissas e conclusões. Para ele, o Brasil já não pode conviver com tentativas de golpes por ter superado certo grau de desenvolvimento social e econômico. Não deixa de ser o pensamento de mais de cinquenta sociólogos reunidos num evento científico.

A pergunta que mais salta dos lábios dos europeus sobre o Brasil é simples, direta, quase infantil, como quem balbucia uma incredulidade:

– Ainda?

A notícia da prisão de Jair Bolsonaro repercutiu na mídia e nas conversas com a participação de brasileiros. A conclusão mais geral é pedagógica, do tipo que se usa para multas por infrações no trânsito:

– Só assim vão aprender.

Da cadeia como método de ensino-aprendizagem. O único risco é uma anistia no meio do caminho. O Brasil tem histórico de apagamentos providenciais. Depois de algum tempo, passa-se a borracha no passado. Até Borges de Medeiros e Arthur Bernardes estiveram na cadeia pós-1930.

Como dizia Getúlio Vargas, não tenho inimigos de quem não possa me aproximar, nem amigos de quem não possa me afastar. Logo, sempre que foi conveniente, as partes fizeram as pazes, anistiaram-se e recomeçaram.

O golpismo entrou no DNA do político brasileiro. Carlos Lacerda, o primeiro Olavo de Carvalho do país, foi certamente o golpista civil mais famoso. Até que tomou bola nas costas dos seus aliados militares de 1964.

Europeus veem o Brasil dividido entre os Estados Unidos e a China e, como colonizadores que se acham mais civilizados, lamentam que a Europa não apareça como opção melhor para parcerias internacionais brasileiras.

Depois de alguns minutos de conversa, europeus chegam à questão que também mobiliza brasileiros. De resto, meu interlocutor etíope também:

– Quanto tempo, de fato, Bolsonaro ficará na cadeia?

O “de fato” é que conta aí.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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