Um dos episódios mais dramáticos dos últimos tempos, a pandemia da covid-19 teve contornos particularmente trágicos em países como o Brasil, onde se estima que mais de 700 mil pessoas morreram em consequência do coronavírus. O documentário Anatomia do Caos (2026) recupera o histórico de negligência do governo de Jair Bolsonaro na crise sanitária a partir dos trabalhos da CPI da Covid-19.
Depois da estreia no cinema de ficção com Meu Nome É Gal (2023), cinebiografia da cantora Gal Costa protagonizada pela atriz Sophie Charlotte, a diretora Dandara Ferreira volta com o doc Anatomia do Caos, em que teve acesso aos bastidores da comissão no Senado sobre o combate ao coronavírus e entrevistou parlamentares. O longa traça um panorama de como decisões deliberadas e a falta de respostas adequadas diante de uma emergência sanitária global moldaram o cenário de crise em todo o país, revelando registros inéditos, documentos e investigações que expõem as falhas estruturais na condução da crise.

Em abril de 2021, a realizadora decidiu ir a Brasília registrar os trabalhos da comissão em um momento de incerteza e medo. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, relembra Dandara.
Para a cineasta, a CPI da Covid-19 surge no documentário como o palco de um teatro político, explorando como o discurso oficial produziu uma confusão deliberada e colocou a ciência em xeque: “Não se tratava apenas de negligência. Havia uma construção de uma narrativa em curso, uma política da desinformação que transformava a morte em estatística e a dor coletiva em deboche”.

Anatomia do Caos também aborda uma questão recorrente nos processos de CPIs no país: a impunidade ao final dos trabalhos. Segundo Dandara, o documentário não busca apenas revisitar o passado, mas questionar o presente e o que significa seguir adiante sem justiça ou responsabilização: “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”.

Anatomia do Caos: * * *
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