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Escritor em depressão busca razão para viver em "Yunan"

Filme exibido no Festival de Berlim é ambientado em uma isolada ilha alemã

Escritor em depressão busca razão para viver em "Yunan"
Filmes da Mostra/Divulgação

Exibido no Festival de Berlim e na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o belo e reflexivo drama Yunan (2025) acompanha um escritor sírio radicado na Alemanha que se isola em uma ilha remota enquanto enfrenta uma grave depressão.

No filme escrito e dirigido por Ameer Fakner Eldin, Munir (Georges Kahabbaz) viaja até uma remota ilha ao norte de Hamburgo determinado a tomar uma atitude drástica. Em meio a essa crise existencial, o escritor é assombrado por uma parábola enigmática deixada pela mãe.

Na rusticidade desse refúgio isolado, o protagonista tem que interagir com a hospitaleira Valeska (Hanna Schygulla), dona da pousada onde acaba se instalando, e seu rude e esquivo filho Karl (Tom Wlaschiha). Aos poucos, as escassas palavras e gestos trocados com eles vão influenciando no ânimo de Munir, levando o personagem a repensar a própria vida, o passado e suas perspectivas sombrias.

Filmes da Mostra/Divulgação

"Yunan começou como uma reflexão sobre o deslocamento e sobre os espaços silenciosos que ele cria dentro e ao redor de nós. Eu queria explorar o que acontece quando o familiar se desfaz, quando a sensação de lar, de pertencimento, é rompida, deixando-nos à deriva no silêncio que se segue", explica Ameer Fakner Eldin, diretor de origem síria radicado na Alemanha.

O realizador diz que o fenômeno que ocorre em ilhas como aquela onde o filme foi rodado, no qual o mar engole a terra e depois reflui deixando-a reemergir, serviu de metáfora perfeita para o ritmo da história: "Submersão, perda e retorno. O que desaparece não se vai para sempre, mas também não retorna inalterado. Essa ideia tornou-se central na minha abordagem do filme, valorizando o não dito e explorando os espaços silenciosos deixados pelo deslocamento. Mesmo quando retornamos, permanece uma sensação de distância, alterando a forma como vemos aquilo que pensávamos conhecer. Eu queria habitar essa distância, não para resolvê-la, mas para imaginar que outras possibilidades ela poderia revelar".

Filmes da Mostra/Divulgação

O ritmo narrativo mais contemplativo, marcado por longas panorâmicas e movimentos de câmera e pelos enquadramentos de cena pictóricos, aproximam Yunan do cinema de Béla Tarr – ainda que os filmes do mestre húngaro fossem em geral rodados em preto e branco, diferentemente dessa produção, cujas paisagens são registradas em primorosas imagens coloridas.

O caráter literário e fabular e a melancolia filosófica do filme lembram ainda as obras de outro expoente do cinema contemporâneo, o cineasta Nuri Bilge Ceylan: tanto os prados alagados da ilha em que Munir se refugia quanto os terrenos pedregosos e agrestes onde se passa a parábola que ocupa o pensamento do escritor remetem aos cenários naturais grandiosos de títulos do realizador turco como Era uma Vez na Anatólia (2011), Sono de Inverno (2014) e A Árvore dos Frutos Selvagens (2018).

Filmes da Mostra/Divulgação

Yunan: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Yunan:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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