Efeméride, efemeridade
Foi olhando mais de perto para a palavra “efeméride” que eu me dei conta do óbvio – e o óbvio, disse muitas vezes Nelson Rodrigues, só é visível pelos profetas. Bom, desculpa aí, quem sou eu para figurar entre os profetas. Esquece o Nelson.
Em todo caso, efeméride marca, assinala, soleniza uma data redonda. Centenários, cinquentenários, décadas. A data redonda naturalmente é apenas uma data, um dia, que vai passar como todos os outros, em sua lenta procissão rumo ao infinito. (Isso também é do Nelson Rodrigues.) Mas datas redondas guardam poder simbólico superior. Aniversário pessoal, para não ir longe. Quem não comemora, discreta ou espalhafatosamente, seu aniversário?
Aqui o óbvio: “efeméride” indica um marco, um monumento, uma suspensão do tempo para lembrar um evento antigo que continua ecoando; dentro da palavra repousa o adjetivo “efêmero”, que indica o que é passageiro, provisório, mero momento, a continuidade do fluir do tempo.
A Parêntese tem atenção para efemérides. Ano passado produziu duas edições impressas justamente focadas nisso: de Erico Verissimo, os 120 anos de nascimento e os 50 de falecimento; de Raymundo Faoro, o centenário de nascimento. As duas edições estão à venda em papel em algumas livrarias da cidade – Bancaberta, Paralelo 30 e Via Sapiens. Uma delas também está à disposição no site da editora Coragem, parceira de fé dessa empreitada e de outras, e em versão digital neste link.
Neste 2026 já celebramos os cem anos de nascimento de Carlos Heitor Cony, com uma (a modéstia que vá longe) excelente série de Marina Ruivo. Semana passada começamos nova série, agora para celebrar a memória, a obra e a figura de Milton Santos, um dos grandes intelectuais brasileiros de todos os tempos, trabalho de professores do departamento de Geografia da UFRGS, articulados por Adriana Dorfman. Essa série segue hoje e por mais duas edições.
(Vem vindo por aí a lembrança dos cem anos de nascimento de José Paulo Paes, poeta e tradutor. Ainda em 2026.)
E hoje temos a grande honra de começar a veicular uma série longa, em dez partes, em torno dos agora celebrados 400 anos das primeiras missões dos jesuítas junto aos indígenas Guarani. Matéria excelente para voltar a esse passado cheio de arestas, com perguntas e certezas ditadas pelo nosso presente, tudo comandado por Artur Barcelos, professor de Arqueologia da FURG, a universidade federal de Rio Grande. O leitor verá que vale cada palavra.
Efemérides, contraponto ao império do efêmero, em nossos velozes dias.
Luís Augusto Fischer
Nesta edição
Artur Barcelos se dedica a investigar a história das Missões Jesuíticas Guaranis, no primeiro texto da série sobre o tema. Breno Pedrosa e Paulo Soares continuam a sequência de materiais a respeito de Milton Santos, e a obra Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler, é assunto da entrevista concedida pela autora a Luís Augusto Fischer.
Detentor de um amor platônico pela capital, Alex de Cássio narra Porto Alegre a partir de canções. Em ensaio sobre Ismene, personagem clássica pouco lembrada das tragédias gregas, Paulo Damin pinta um perfil dessa figura tão distante historicamente, mas que é gente como a gente.
Arthur de Faria, na série sobre o Rock Gaúcho, fala de um marco musical surgido nas ruas da vila do IAPI: a banda Liverpool. No quinto capítulo do folhetim Entre o Mundo e Eu, Marlon Pires Ramos explora com sutileza os detalhes das vivências negras em Porto Alegre.
De olho no dia das mães, Bruno Negrão narra com humor a maneira como a sua lhe passou conhecimento… de português.
O cordel de Gonçalo Ferraz apresenta o terceiro protagonista da longa trama.
A finalera é com Juremir Machado da Silva e Arnoldo Doberstein. O primeiro, apresenta um conto baseado na experiência que o autor teve ao ler Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes; o segundo, contando a história de uma figura da capital que foi de cartunista a conselheiro municipal, em 1912.
De mate, café ou chá em mãos, boas leituras!