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Capitu traiu ou não traiu? (2/2)

A prova?

Capitu traiu ou não traiu? (2/2)
Dom Casmurro enciumado segundo o GPT

Não traiu. Mas devia ter traído. Foi Capitu quem, num momento em que a vida do casal era “doce e plácida”, chamou a atenção do marido para a semelhança entre o filho Ezequiel e Escobar: “Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? (...) Só vi duas pessoas assim, um amigo do papai e o defunto Escobar”. E mandou o filho virar-se para que Bentinho pudesse comprovar o que estava dizendo. Ou Capitu era fria, calculista, interesseira e manipuladora, como pensam os seus detratores e o próprio Bentinho, e não cometeria esse erro primário de se denunciar. Ou não era tão calculista, apenas apaixonada, o que parece ser a verdade descrita, e não cometeria esse erro por medo.

Capitu traiu ou não traiu
Encontrei um francês que leu Dom Casmurro (“Dom Casmurro e les yeux de ressac”). Ele me interpelou: Capitu traiu ou não traiu? Disse que não. Procurei meus alfarrábios. Decidi provar que a traição não aconteceu

Resta imaginar que fosse uma jogada radical e audaciosa de dissimulação. Também não havia motivo, pois quando agiu assim não pairava qualquer suspeita sobre ela. Era o tal período de vida “doce e plácida”. Por fim, pode-se pensar que fosse apenas um deslize produzido pelo excesso de confiança. Uma mulher que tivesse traído e fosse tão manipuladora e calculista não se descuidaria dessa forma. Se não fosse calculista, não baixaria a guarda por medo, logo nunca teria excesso de confiança. Capitu não traiu. Se tivesse traído, essa passagem citada tornaria a personagem totalmente inverossímil. Resta explicar a semelhança entre Ezequiel e Escobar? O próprio Bentinho admite que, um tanto levianamente, chegou a ver semelhança física entre um retrato de uma mulher e Capitu, sem que houvesse qualquer parentesco entre elas.

Bentinho era canalha. Julgava os outros pelas suas fraquezas e inseguranças. Tentou envenenar o filho ainda criança com uma xícara de chá. Desejou abertamente a mulher de Escobar. Este, ex-seminarista, não se perturbou quando se especulou sobre um casamento futuro entre a sua filhinha e o pequeno Ezequiel, ambos tão amigos quanto Capitu e Bentinho haviam sido na infância. A perspectiva de um incesto teria, no mínimo, provocado um sinal de preocupação no rosto de um pai com passado religioso. Nada. Escobar nomeou Bentinho seu segundo testamenteiro e deixou-lhe uma carta cheia de estima. Teria feito isso por cinismo ou arrependimento, ele que se afogou no dia seguinte ao anunciar que tinha projetos para o futuro? Outra prova de que Capitu não traiu é a desconfiança tardia de um palerma como Bentinho.

Capitu morreu degredada na Suíça. Ezequiel faleceu perto de Jerusalém. Veio ver Bentinho, que só confirmou as suas suspeitas, mas impediu que o rapaz se encontrasse com a velha Justina, a única em condições de perceber a semelhança com Escobar. Temia ser desmascarado. Bentinho cita Otelo, que matou a mulher inocente, afirmando que não tinha lido ou visto o drama antes da sua própria tragédia. É dizer que a sua também é uma história de ciúme, que faz ver coisas, até mesmo uma semelhança física extrema que ninguém de fora notou, não de adultério. Admite que José Dias, se vivo, teria visto em Ezequiel a cara dele, Bentinho.

Machismo

Há décadas, quando defendi Capitu pela primeira vez, eu não tinha ouvido falar da norte-americana Helen Caldwell, que em 1960 publicou O Otelo brasileiro de Machado de Assis, onde avisou que Bentinho não era confiável e declarou a inocência de Capitu. A prova só podia estar nos autos, no próprio livro. Teria de ser uma prova de lógica literária, capaz de garantir a verossimilhança da personagem. Precisou uma norte-americana meter o bedelho em nossos livros para mostrar aos intelectuais brasileiros o óbvio contundente: a citação do Otelo de Shakespeare estava no romance como uma chave para indicar a solução do enigma.

Roberto Schwarz, considerado o grande especialista nacional em Machado de Assis, inventou um Machado critico do capitalismo. Em Dom Casmurro, a política, em qualquer sentido da palavra, está quase ausente. Bentinho fala nos negros da família, alugados ou não, sem qualquer tom crítico ou de análise. Consegue praticamente a proeza da neutralidade. Vez ou outra, Machado de Assis ironiza a promessa de Dona Glória de tornar Bentinho padre como uma dívida contraída junto a um milionário. É puro artifício para dar graça e leveza ao texto, sem qualquer tipo de postura de oposição ao sistema econômico vigente.

O maior enigma atualmente não consiste em saber se Capitu traiu ou não Bentinho, mas em saber onde está a crítica ao capitalismo de Machado de Assis. Borges era conservador. Céline foi racista e simpatizante do nazismo. Nenhum grande escritor necessita ter sido também um defensor das causas sociais.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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