Hoje eu queria falar de um aquecimento que tem nos atingido de forma muito mais agressiva e rápida que o global: o das cidades. Ainda que acentuado por ele, as causas são diversas. Estou falando da forma de construir cidades. Há muitas maneiras de fazê-las, algumas péssimas. Escolhemos para as nossas, justamente as piores.
Ilhas de calor é como chamamos bairros ou regiões que alcançam temperaturas muito maiores do que outras regiões da cidade, normalmente bairros baixos e arborizados. A razão é o predomínio do concreto, aço, pedra, asfalto e outros tipos de materiais de grande inércia térmica que absorvem e retém a energia solar.
Nessas ilhas, a arborização e áreas abertas que poderiam diminuir a densidade da massa construída (o radiador de calor), e ventilá-las, ocupam proporções mínimas quando comparadas à edificada. Quem já viu filmes que se passam no verão de Manhattan – o maior aglomerado de grandes edifícios do planeta – antes da proliferação do ar condicionado, pode ter uma ideia do que estou falando. Jornalistas sufocando em redações de jornais é uma cena que me vem à memória facilmente. O problema é antigo e, pelo visto, não aprendemos nada com a má experiência dos outros.
Há formas de alcançar densidades satisfatórias para as cidades que não precisam exagerar na altura dos edifícios. Porto Alegre é um bom exemplo. Era verticalizada com prédios relativamente baixos se comparada às demais cidades brasileiras, o que era benéfico para o microclima escaldante dos nossos verões. Os prédios não criavam barreiras intransponíveis para circulação de ar e as fachadas expostas ao sol eram menores. Muitas, se não a maioria, usufruiam da sombra das árvores, o que é o ideal.
Mesmo com prédios de pequeno porte, Porto Alegre era a capital mais verticalizada do Brasil. Foi o que citei em outra coluna para surpresa de muitos. Volto para dizer que já não é mais, Vitória nos ultrapassou: 45,4% da população mora em edifícios de apartamentos, enquanto aqui são 42,36%. Mas existem cidades brasileiras ainda mais verticalizadas do que as capitais. Santos lidera o ranking com 63,45%. Esse índice, é preciso esclarecer, não tem nada a ver com a altura dos edifícios, mas sim com a forma de como a população ocupa o território. Casas isoladas ou apartamentos. Quanto mais pessoas moram em prédios de apartamentos, mais densa ela é. Isso é muito bom desde que haja um equilíbrio entre a massa construída, áreas abertas e sombreadas.
Não é o que acontece em Santos. Lá predominam edifícios de 25, 30 ou mais pavimentos muito próximos uns dos outros. Reportagem da Folha de S.Paulo de 14 de dezembro aponta: Verticalizada, Santos lidera em ilhas de calor no litoral de SP. “Santos cresceu para cima. É um prédio cobrindo o outro. Falta vento e falta verde", observa uma moradora. “Mais verde amenizaria o problema. [mas] É paliativo. Solução definitiva não dá mais” diz outro morador. Já o urbanista e pesquisador da UrbVerde Marcel Fantin ressalta: “a verticalização é uma questão central. Interfere na movimentação dos ventos e cria bloqueios contra a circulação adequada, além de desestruturar toda a infraestrutura verde urbana”. “Ilhas de calor não só aumentam o cansaço físico como reduzem a capacidade de regulação térmica corporal, o que abre caminho para doenças relacionadas ao aumento da carga de trabalho do coração”, arremata.
Quem vive em Porto Alegre sabe bem o que é enfrentar as ondas de calor que agora se abatem sobre a cidade em qualquer época do ano. Se o mormaço excessivo já é um problema, a notícia ruim é que vai piorar. A prefeitura além de não enfrentar de frente o problema, que exige atitudes radicais e imediatas, tem agido em sentido contrário. A atitude de cobrir de asfalto ruas de paralelepípedos é a mais caricata do descaso de como ela trata um problema tão grave.
A aprovação de um novo Plano Diretor permitindo a construção de edifícios ainda mais altos do que os atuais e mais próximos uns dos outros vai no caminho do não retorno. A proposição deveria ser no sentido inverso, mas o prefeito quer tornar literal a expressão seis meses de inverno, seis meses de inferno, que usamos para nos referir ao clima da capital. Isso se ainda tivermos inverno...
A irresponsabilidade com a questão do conforto térmico das cidades virou praga nacional. Até mesmo cidades praianas que serviam de refúgio no verão estão destruindo seu patrimônio climático. Torres, que eu frequento, está transformando a Praia Grande em um grande e compacto maciço de aço e cimento. A brisa já não encontra frestas para correr e refrescar os apartamentos que já não conseguem dormir sem o ar condicionado. Os primeiros edifícios do litoral gaúcho seguiam o padrão de três, quatro pavimentos, a maioria com corredores de circulação abertos. Reinava a descontração e a fruição da brisa do mar. Hoje não existe mais o estilo praiano de veranear, os prédios e mesmo as casas são construídos com os mesmos parâmetros das grandes cidades. A homogeneização do calendário empobrece a vida. Torna todos dias iguais. Isso é bom para saúde mental?
A dissonância cognitiva em relação à questão do conforto térmico das cidades me faz pensar em uma pulsão de morte urbana. A mesma que nos condena, entre as tantas que nos afligem diariamente, a passar horas no ir ou vir, tomar banho em praias poluídas e a viver cercado por muros e concertinas. Haverá divã para tamanha loucura?