Só faz uma semana que o mundo entrou no fictício ano de 2026 e quem ainda se lembra de 2025? A sensação é de que já faz muito tempo que o ano passado acabou. Esse longínquo ano de 2025 é justamente isto: passado.
A aceleração da qual gostam de falar os filósofos da técnica veio com uma canetada de Donald Trump: ataquem. A Venezuela foi tomada com a facilidade de um assalto à mão armada contra uma clínica de repouso.
Mesmo assim, houve mortos. O Império não costuma contar aqueles que morrem como efeito secundário de uma ação destinada a entrar para a história pela eficácia e pela simbologia: a democracia contra o mal.
Trump colocou mais um tijolo na ruína de uma época: o tempo do multilateralismo, da autodeterminação dos povos e da soberania nacional.
O mundo pertence a três potências militares como certas áreas das cidades brasileiras pertencem aos chefes das gangues que as controlam. Os donos do mundo são os Estados Unidos, a China e a Rússia, com Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping. Cada um controla o seu “hemisfério”.
Durante muito tempo, depois da Segunda Guerra Mundial, a divisão da Guerra Fria fatiou a pizza em dois grandes pedaços, o da URSS e dos EUA.
Com a queda do muro de Berlim e o ocaso do socialismo soviético viveu-se um tempo de ilusão, a do fim de um binarismo tão redutor.
O movimento das placas tectônicas da geopolítica reacomodou as peças no tabuleiro. O butim agora é dividido em três partes sem pruridos. A Rússia já avançou sobre a sua fatia ucraniana e, apesar da resistência europeia, com ajuda dos Estados Unidos, prepara-se para selar a conquista.
Os Estados Unidos deram o passo que sonhavam cometer: transformar a Venezuela em protetorado norte-americano. A China ainda rosna para Taiwan.
Nessa nova repartição o que chama a atenção é a covardia da Europa, que poderia ficar com uma quarta parte do bolo. A Europa, contudo, acostumou-se a recorrer aos Estados Unidos antes de dar um tiro.
O andar da carruagem, porém, poderá obrigá-la a sair da toca. Se os Estados Unidos atacarem a Groenlândia, que pertence à Dinamarca, os europeus que fazem parte da OTAN terão de sair em defesa da parceira.
A ONU já não passa de uma miragem. Os Estados Unidos de Trump acabam de abandonar 66 siglas ligadas às Nações Unidas. A Organização Mundial do Comércio foi pisoteada com os tarifaços de Trump. Só falta implodir a OTAN.
Uma Nova Ordem Mundial instala-se. Negócios autônomos, como a ditadura de Maduro, não terão mais lugar. Tem algo de estranhamento velho nesta nova configuração. O que será? Talvez seja só a primazia da força.
Países sem poderio militar para defender a integridade dos seus territórios, como o Brasil, continuarão a existir por assentimento dos que mandam no mundo, prestando-lhes vassalagem e pagando taxas de proteção por meio do acesso às suas principais riquezas, ou correrão grande perigo.
O Brasil tem dois pontos sensíveis que poderão expô-lo ao apetite do patrão do hemisfério em que se situa: a Amazônia e as “terras raras”.
Tem petróleo também. Por enquanto, o da Venezuela bastará.
No distante ano de 2025 ainda se sonhava com outro mundo possível.