Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

De Recibo de Pagamento Autônomo para Contrato por Temporada

Parêntese #312

De Recibo de Pagamento Autônomo para Contrato por Temporada
Imagem: Alexander Fox / Pixabay

Durante décadas, o árbitro brasileiro entrou em campo com apito na boca, cartão no bolso e recibo na mão. Recibo de Pagamento Autônomo (RPA). Como se o jogo fosse um bico, e a pressão fosse hobby. Agora, em tom solene, a Confederação Brasileira de Futebol anuncia o que chama de “primeiro modelo de profissionalização da arbitragem nacional”. A palavra soa grande. Profissionalização. Profissional. Mas, como quase tudo no futebol brasileiro, ela chega com sobrenome: Série A.

Dados ajudam a dimensionar o anúncio: o quadro nacional da CBF é composto por mais de 500 árbitros espalhados pelo país. Desses, apenas 72 foram selecionados para o primeiro contrato profissional por temporada. E os/as outros/as mais de quatrocentos? Continuarão apitando campeonatos “menores” no mesmo modelo de sempre, ou seja, na prática, seguirão como “varzeanos” de um sistema que exige profissionalismo máximo.

A Série A, essa vitrine milionária, passa a ser o espaço da arbitragem “oficialmente” profissional. As demais divisões seguem como estavam: carregando o piano, sustentando o espetáculo, errando sob a mesma pressão, mas sem contrato, sem estabilidade e sem direitos. O critério não é o trabalho em si, mas o palco onde ele acontece. Como se apitar fosse diferente conforme o valor do ingresso.

Há outro silêncio no anúncio dos selecionados para esse primeiro experimento de profissionalização da arbitragem. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol Feminino, que será realizada no Brasil em 2027 — com Porto Alegre, inclusive, entre as cidades-sede. Ainda assim, a presença feminina é residual: dos 72 árbitros selecionados, apenas oito são mulheres. Onde estão as árbitras nesse processo? A arbitragem feminina seguirá, mais uma vez, relegada ao amadorismo?

O dado revela que o discurso da profissionalização não alcança, de forma efetiva, os corpos das mulheres que também correm, decidem e são cobradas com o mesmo rigor ou até com maior severidade, posto que estão ocupando um espaço historicamente masculinizado, no qual sua presença ainda é frequentemente questionada. Se ampliarmos o olhar para a dimensão racial, o quadro é ainda mais alarmante: apenas duas pessoas negras ou pardas integram o grupo dos 72 selecionados. A profissionalização, assim, expõe não apenas desigualdades trabalhistas, mas também as marcas persistentes de gênero e raça no futebol brasileiro.

A palavra “profissionalização” merece atenção, porque a cobrança sobre a arbitragem sempre foi profissional. Sempre se exigiu excelência técnica, preparo físico e psicológico, decisões imediatas sob pressão extrema. O erro nunca foi tolerado. O que sempre foi amador foi a valorização do trabalho. O pagamento. A proteção institucional. Agora, a profissionalização se revela, mas apenas para a elite. Para os credenciados FIFA, que em sua maioria já são os mais escalados e os mais bem remunerados. Quem já estava no topo, sobe mais um degrau, agora, com garantias.

O modelo prevê ranking, sobe e desce, dois que caem, dois que sobem. Um quase rebaixamento simbólico de árbitros. A lógica do futebol aplicada ao mundo do trabalho. Meritocracia em forma de tabela. As Séries B, C e D viram laboratório. Campo de testes. Espaço de formação sem contrato, sem garantia e sem direitos consolidados.

Contudo, a iniciativa não deixa de ser um avanço. Pela primeira vez, o apito inicial foi dado no sentido da profissionalização formal da arbitragem no Brasil. Isso importa e precisa ser reconhecido. O jogo apenas começou. Ao final da temporada, saberemos quem serão os dois “expulsos” do quadro profissional e quem serão os dois “incluídos” no próximo contrato. Como se o trabalho da arbitragem fosse uma partida eliminatória, e não uma função estruturante do futebol.

É importante demarcar que a profissionalização da arbitragem não acontece fora do futebol, nem fora do mundo. Ela não está deslocada das contradições do próprio esporte, tampouco de outro modo de produção que não o capitalista. Ao profissionalizar apenas quem já está no topo, o sistema produz e reproduz suas próprias desigualdades. O futebol, mais uma vez, escancara aquilo que a sociedade neoliberal insiste em naturalizar: direitos transformados em prêmio e valorização profissional reservada a poucos. 

O apito soou. O jogo segue. E a arbitragem, embora chamada de profissional, agora segue ainda mais dividida entre a elite do contrato e a multidão do improviso.

As opiniões emitidas pelos autores não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Márcio Chagas

Professor de Educação Física. Também ex-árbitro de futebol Aspirante FIFA, melhor árbitro Campeonato Gaúcho (2008/2011/2012/2013/2014), pai do Miguel e da Joana e militante antirracista.

Todos os artigos

Mais em Parêntese

Ver tudo